quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Prece de Natal

Há mais ou menos seis meses não escrevo um verso, um poema. A poesia me abandonou por uns tempos. Escrever poesia requer arrebatamento, alma em eterna suspensão... É mesmo a poesia que se escreve no poeta, como disse Octavio Paz. E ela me deixou por uns tempos, volto a dizer. Uns tempos longos, que são os tempos de se crer numa realidade que se impõe, que diz assim: olhe, estou aqui, me veja, existo mesmo, não sou alucinação. Nunca acreditei na realidade, desde criança prefiro o outro mundo, não esse de compras e pagamentos, de nota de dez reais e do trovejo que é carregar moedas, de sair querendo uma bolsa nova e um sapato novo. Desde criança construo meus próprios sapatos, e meus vestidos são do organdi mais fino, mais tênue, mais imperceptível... Ah, e uso chapéus antigos, de muitos séculos passados, todos eles costurados com agulhas invisíveis e dedos vagos. Não, não sou e não quero ser desse mundo. Não quero essa realidade. Essa mesma agora de ir ao Shopping Piedade e ter que me enternecer, morrer de pena daquele monte de papai noel debilóide dançando, pedindo a caridade de serem vistos e apreciados. Tenho horror a qualquer festa que não seja a do espírito que dança do outro lado do mundo... Olhem, vejam!, a festa é linda, tem igrejas e anjos barrocos, preces e sonhos loucos... desses que a gente só tem quando estamos soltos, leves, completamente mortos.

10 comentários:

Críticas Criticáveis disse...

Papais-noéis do shopping Piedade destroem qualquer sonho de Natal heheheh

SANDRO ORNELLAS disse...

bonito, aeronauta.
e essa de papai noel em shopping é de amargar.
ah... dançar já é estar em outro mundo, aliás, o mundo real. o resto não existe. dói, mas não existe.

Renata Belmonte disse...

Aeronauta, querida,
Lembrei muito de você hoje! Em outra oportunidade, escreverei contando o motivo disto. Mas deixo aqui um beijo e o meu sempre desejo de ler as coisas lindas que você escreve.

anjobaldio disse...

A gente tem de se reiventar a cada dia nesta medíocre existência cotidiana.

Renata Belmonte disse...

Isto é poesia, Aeronauta!
Beijos e Feliz Natal, querida!

Mônica Menezes disse...

Aeronauta, tece um vestido desses pra mim? São lindos.

Oroonoko disse...

Mas o que você escreve aqui já é poesia... pura poesia!

Alan disse...

adorei o texto, tb prefiro o lado da alma. Feliz Natal.

Kátia Borges disse...

Oi, só pra desejar um bom Natal e um 2008 de paz e de muito mais boa literatura e poesia. Bjs

aeronauta disse...

Críticas: sinto a mesma coisa ao ver aquele bailado medonho;
Sandro: você tem razão: não existe real... e dói;
Renata: fiquei curiosa - me diga! Feliz Natal também para você!
Anjo baldio: é certo, "a vida só é possível reiventada", disse Cecília;
Mônica Menezes: que lindo o seu pedido! Mas você faz vestidos muito mais bonitos...
Oroonoko: obrigada, mas a forma do verso me deixou...não sei até quando...
Alan: Feliz Natal também. Não sei quem é você, mas obrigada por entrar nesta casa;
Kátia: Feliz Natal - lhe digo a mesma coisa! E que 2008 possa trazer muitas palavras para nós...
Obrigada a todos. Beijos.