domingo, 15 de fevereiro de 2009

Destino


Sinto que o Destino está conversando comigo. Sua conversa eu já conheço: em silêncio. Um silêncio devoto, solene, como cabe a uma figura de tamanho porte, de tamanho poder. Não conversa entre os dentes. Mãe sempre disse que quem conversa entre os dentes é falso. O Destino não é falso. Ele pode ter todos os defeitos do mundo, mas falsidade não tem. Por isso é cruel. Toda crueldade é revestida da mais nua e dura verdade. E ele é assim: crudelíssimo, pois verdadeiro.
Desde cedo sinto a conversinha dele no meu pé do ouvido. É tão esperto que escolheu logo o domingo para essa prosa. Logo o domingo, dia da semana feito tão somente para grandes famílias: aquelas que se juntam diante de deliciosos pratos à base de muita risada e comunhão. Para pessoas sozinhas, os domingos são templos silenciosos com as portas abertas sem qualquer rumor por dentro.
O que sinto na conversa silenciosa do Destino é que minha vida agora lhe pertence por completo. Já se foi o tempo - diz ele -, em que você tinha livre arbítrio; agora eu, só eu darei as cartas. O silêncio proveniente da dureza dessas palavras me paralisa. Penso nos últimos acontecimentos, exumo o passado com gosto e ele vem fétido, dissolvido, louco. Acabou. O passado acabou. Boto as mãos nas vistas para evitar o sol forte e tento olhar o futuro; nada vejo. O Destino gruda-o nas suas mãos majestosas, prende-o e fecha-o no cofre. Agora estou aqui, no presente, sem saber o que fazer. O Destino sabe. Foi o que ele me disse no colóquio silencioso desse domingo: Aguarde.


Imagem: "Destino", por Shavy.
(www.flickr.com)

6 comentários:

Anônimo disse...

O melhor é ludibriar o destino e inventar um novinho. Beijos, M.

Juan Trasmonte disse...

O destino me trouxe aqui nessa tarde de domingo de calor portenho. Ele foi generoso por me trazer aqui
beijos

Marcus Gusmão disse...

Formidável.

Shagaly disse...

Magnífico!!!

O tempo e suas vertentes... Sempre inspirando os bons textos!

Nilson disse...

Uau!!! Faço minhas as palavras de Juan e Marcus. Destino é destino, e o seu tem a ver com essa escrita elegante, no cerne, claríssima!

guilhermina, (ataulfo) e convidados disse...

Acabo de chegar por aqui. Destino curioso. Não gosto da idéia. Acalenta-me seu avesso, mas ecrito assim, me rendo, ao menos até o amanhecer. Belo texto!
Prazer,
Guilhermina
www.esquinadodesacato.blogspot.com