domingo, 27 de junho de 2010

elegia na manhã


Meus cabelos absorvem orvalhos de junho, com fogueiras e suas cinzas, no crepitar de madeiras petrificadas e mortas. Aceito tudo: esse vento que desconheço e o amor que não tenho; os vestidos não vistos e o batom perdido; o penteado esquecido e os olhos cansados, ah cansados, há tantos anos debruçados para o jardim...
Uma ruga aqui e outra ali embelezam a minha alma, pálida, firme, e tudo que faço é deixá-la assim: alta, sempre alta, madura para colheita, viva e morta, nesse ínterim intermitente, vago, enfim. Aceito tudo: a casa vazia e os inimigos na sala; o silêncio das cargas que o trem dispara; a ternura ausente e sem adoração: apenas diluída na memória.



Imagem: "Duino elegia di luce", por wordscraft.
(www.flickr.com)

5 comentários:

Bípede Falante disse...

Como sempre, uma prosa que toca feito poesia...

Terráqueo disse...

Tuas imagens sempre me assombram. Parabéns.

Gerana Damulakis disse...

Lindo. O texto da escritora que vc é.

Chorik disse...

Queria ter o dom de aliviar tua solidão, minha amiga, mas se tal poder tivesse, eu me perguntaria se acaso não estaria privando o mundo de elegias como essa. Mas que egoísta eu sou de aproveitar-me da tua desdita assim, tendo somente uma amizade ausente a te oferecer em troca.

Viviane Costa disse...

Boa hora é essa em que tudo parece diluído na memória. Eu, pelo menos, costumo aguardar pacientemente por ela. Beijo!