segunda-feira, 21 de junho de 2010

José e Pilar


Quando soube que José Saramago havia morrido, estava numa intensa e feliz lida com meus alunos, na aula "Estudos teóricos do texto literário", falando de poesia. Líamos poemas de amor num retroprojetor antigo, com uma transparência meio difusa, e uma aluna chamou a atenção para o grande amor daquele momento, que também, de alguma maneira, morria. Era o amor de José e Pilar. O mundo inteiro, acredito, parou para saber mais desse amor. Para todos não era apenas a morte de José Saramago que importava, mas aquela história perfeita que trazia sua última cena: Pilar lendo trechos de O Evangelho segundo Jesus Cristo no velório do marido. Nesses dias subsequentes, também parei tudo para saber mais desse amor. Me interessam e muito histórias de amor que dão certo, eu que internalizei que o amor nessa vida só tem descaminhos e que não há esperança possível para o total e raro encontro. E imaginei o dia a dia daqueles dois, na sintonia perfeita que o amor exige: o diálogo além do beijo. A intensa compreensão do mundo no olhar e no abraço; a compensação da solidão de existir na confluência de outra solidão, vividas na perplexa e resignada comunhão de silêncios. A felicidade possível em algo que vive carregado de uma combustão infeliz: o amor entre duas pessoas.
José e Pilar - ruas que se entrecruzam em Azinhaga. Nesse mundo, portanto, emblema topológico do verdadeiro encontro.

6 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

não, não há apenas descaminhos e desesperança no emcontro verdadeiro. aí está! com sua morte, saramago nos conta a ultima e mais bela cena da vida.

aeronauta disse...

É, Bernardo, estou voltando a acreditar na possibilidade de existir o verdadeiro encontro amoroso.

Viviane Costa disse...

“Se eu tivesse morrido aos 63 anos antes de lhe ter conhecido, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora."

Olha isso, Nauta: http://www.youtube.com/watch?v=MYhcDPPctnc&feature=player_embedded

Beijo!

Gerana disse...

Sim, na maior parte das vezes há o descaminho, mas há encontro também.
José Saramago disse que Pilar foi a sua salvação. Antes de ouvir isso, eu também já havia dito a Aramis que ele é a minha salvação.
Há encontro, às vezes tarda mais um pouco. Veja tudo que passei antes, que tanta gente passa antes de encontrar: são caminhos tortos para que achemos a estrada lisa e reta.
Lembrei de Quintana (porque vc fala de silêncio) que dizia que o amor é quando o silêncio a dois se torna cômodo(algo assim).

lagarta disse...

minha amiga tão querida,
que dos meus percursos amorosos conhece também...
tive encontros, me somaram partes importantes de mim.
mas esperei seis anos pra estar com O encontro, que reconheci desde sempre sendo bênção, comunhão e meu sertão do mundo rosa.

I.Moniz Pacheco disse...

Há muitos descaminhos mas acredito plenamente no amor. Só acho que ele "ainda" não entrou pelo meu caminho. Em estradas do passado já cruzei com algumas cópias que foram desbotando e perdendo a cor com o tempo. Será que ainda chega?