sexta-feira, 11 de junho de 2010

ferrovia


Ele vestia uma camisa de listras.
E passou o nariz nas minhas costas.
Eu no seu colo, como se fosse filha.

Nua, meu vestido me despia.
E as mãos dele na minha cintura cindiam
As veias entorpecidas naquele dia.

Era dura a sua calça, de um jeans antigo
E acolhia minhas nádegas como trilhos
De uma ferrovia – áspera e descalça.

Era farta a sua promessa, entrega ávida
Nos dedos que invadiam meus cabelos,
Apagando e escrevendo poemas velhos.

Era mesmo de graça o momento eterno
Que eu registrava com meu corpo no seu colo,
Asfixiando a morte, os demônios, o mundo todo.



Imagem: "Trilhos", por Álvaro João Pressanto.
(www.flickr.com)

8 comentários:

Georgio Rios disse...

Tercetos de fina maestria, cada evolução rpoduz uma música de impar sonoridade.Lindo poema!!!

domingos da paixão disse...

Quem diria que uma camisa de litras já bem gasta pelo tempo, pudesse levar a conhecer o trilhos de uma ferrovia? Belissima poesia. A ferrovia parece representar a rigidez de algo que pode machucar mas pode dar prazer, além de ser o caminho que pode nos levar ao desconhecido ou reviver o já vivido.

LÍVIA NATÁLIA disse...

Este vai pra minha sala de aula. Lindo!

Chorik disse...

Ah! Agora te vi como locomotiva. Ou uma louca emotiva? Vixe, que trocadilho infame!

Você tem uma qualidade rara. É boa de prosa e verso, Aero. Sigo cada vez mais admirado.

Gerana Damulakis disse...

Nossa, que beleza e que força erótica no tão somente sugerido. Amei!

Nilson disse...

Sensual, sim: o que demonstra a versatilidade da sua poesia! Massa!

Bípede Falante disse...

Quanta paixão escapando por entre as palavras!
Lindooo.
Lindooooo!

Maria Muadiê disse...

lindo, Ângela, lindo