segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Desista


(...) Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. (Clarice Lispector, em Felicidade Clandestina)


Quem lê Clarice conhece muito bem o fragmento acima, que faz parte de um dos contos mais lidos da literatura brasileira. História de sadismo. De masoquismo. História de amor. Amor aos livros. E que se aplica a todo e qualquer outro tipo de amor. Quem ama deseja seu amado, mas tem sempre alguém que quer impedir isso. Daí você sofre. O outro, o que quer impedir seu amor, regozija com seu sofrimento. E você, por conseguinte, apega-se a esse sofrer com gosto, aceitando, deixando o outro cada vez mais feliz.
Como a menina do conto de Clarice, comecei a sofrer cedo. Minha colega de classe e amiga também tinha muitos livros e não me emprestava. Usava minha amizade nos momentos em que seus amigos preferidos não estavam presentes. Me rechaçava quando esses apareciam. Depois que iam embora ela me chamava de sua porta com um aceno, e eu ia. Podem me chamar de cara de pau, eu era mesmo cara de pau, ou melhor, como diria minha irmã, eu não tinha vergonha na cara. O que eu queria era ser amada. E quem quer ser amado nunca tem mesmo vergonha na cara.
Cresci, portanto, sem nenhuma vergonha na cara. Pedindo, mendigando amor. O outro, ao saber a profundidade disso, sempre me deu o sofrimento; porque dar o sofrimento em troca do amor pedido é uma forma de felicidade torta. A pessoa que lhe nega o amor se torna forte, glorioso, e por isso feliz: tem o amor do outro a tal ponto que o nega - eis a mais cruel força do poder. Negar amor e pisar em quem lhe ama é uma sabedoria às avessas: quem usa essa arma é sempre tranquilo, robusto, cevado, tem o rosto saudável. Ao contrário, do lado de cá o rosto se molha, linhas vão vincando a testa, a pele se rasga...
Desista!, diria Kafka, e eu agora repito, tenazmente forte.


Imagem: "Desamor2". In: www.google.com.br

11 comentários:

Livia Natália disse...

Forte. De uma potência absurdamente linda, e doída.

Gerana Damulakis disse...

Excelente, aero. Começar com Clarice e terminar com Kafka: show!

Banho Veneno disse...

Concordo com Livia,o amor é coisa doida mesmo.E nem sabemos. A parte perdida do outro não é a que oferecemos, um desencontro ofertado.

Chorik disse...

O sofrimento nos cai tão bem, mas não tinha que ser assim. Nós não temos vergonha na cara mesmo, somos dois mendigos de amor. Excelente texto, muito bem desenvolvido e estruturado, mais um exemplo de sua mestria. Aero, eu me assombro cada dia mais com a sua escrita.
Bj

Katia disse...

Poxa, menina! Diante de tamanha grandeza, como ousar escrever algo??? " ...Dar o sofrimento em troca do amor pedido é uma forma de felicidade torta"! Desisto!!!

Loi disse...

Não tenho palavras para definir seus textos...simplesmente maravilhosos!!!Quanto talento, querida!Bjos!

M. disse...

Você é maravilhosa.

Denise disse...

Longo suspiro

abestalhadamente descoberta

carinho

Moniz Fiappo disse...

Quando chegará o dia 24 para ter nas mãos seus maravilhosos textos?

Centelhas do outro disse...

Quem nega amor não é forte, é fraco, problemático e desumano.
Ou seja, não merece ser amado.

gláucia lemos disse...

Aeronauta, isso é de uma realidade cortante. O poder, a força sádica de quem sabe ter o domínio. No outro extremo, o fraco, o oprimido pela fome de amor, de aceitaçao, a consciência de ser o menos,o fraco o pequeno, o avassalado, e curvar-se a isso como a um destino irremovível. Não lutar contra, não se fortalecer e assumir uma auto-valorização, numa vizinhança do masoquismo, como a dizer sou mesmo o fraco o menor, o último e continuar mendigando, perder a "vergonha na cara". Isso é uma realidade exposta em várias situações da vida, muito especial no terreno das emoções. Grande texto. Um texto que arranha as chagas e sangra. Você é grande.