quinta-feira, 19 de agosto de 2010

destino


Que destino é reservado para os presentes que não chegaram, que desistiram de sua rota? Será que foram para outra pessoa? Ou então ficaram com seu dono, já certo de que sempre seriam seus?
Intrigam-me os presentes que num instante foram meus, mas não vieram depois para minhas mãos.
Ou as dedicatórias recusadas, que não chegaram ao livro publicado.
Ou os amores de uma noite, que na manhã não vingaram.
Para onde vão os afetos cortados?
E se seguissem, para onde iriam?
Ah, a casa é grande, dá tudo nela: presentes, amores, afetos.
Dá tudo aqui, nem pense em me poupar. Achou besteira o que iria me dar e por isso desistiu?
Não, olhe como é grande esse jardim. Ali, perto daquela pedra, acolhem-se direitinho seus pés. E nesse cheiro de vento, seu hálito abre uma manhã cinzenta e lírica.
Ah, a neblina... tudo é cena. Não desista.
Quero o brinco simples, o pingente de fosco cristal, o anel de pedra falsa, seu afeto quase parado.
Em mim recolho toda e qualquer renúncia.


Imagem: www.google.com.br

7 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

mais um texto bonito, como todos.
e quem responder as perguntas, ganha doce!

O que é isso? disse...

Aero, para onde vai o afeto desistidoé sempre uma pergunta q me faço. O que fazer com o meu q continua latejando como dedo martelado?

Gerana Damulakis disse...

Lindíssimo! Nem palavras tenho no momento, vou reler, sentir outra vez a beleza do texto.

Chorik disse...

O que eu lhe dei faz tempo, sem avisar e sem pedir, foi o meu amor amigo. Você pode não notar, mas ele está ali, impregnado na lâmpada que ilumina suas leituras noturnas, na poeira escondida entre as letras a e s do teclado em que escreve textos como esse. Não chegaram aonde deviam. Ao menos estão perto. E isso já me conforma.

Centelhas do outro disse...

"E nesse cheiro de vento, seu hálito abre uma manhã cinzenta e lírica."
Sei que vou quebrar a cabeça e apelar para o coração, mas vou conseguir criar uma imagem, consistente, para essa belíssima construção. (rimou)
Abraço.

Moniz Fiappo disse...

Devia haver um espaço (com certeza enoooorrrmeee) onde ficariam guardados todos esses "não entregues" e a gente podia ir sempre que estivesse muito triste e escolher, ao menos um, para aliviar nosso coração.
Também assino embaixo do post de Chorik e como Gerana, voltarei para ler algumas vezes.

Marcus Gusmão disse...

Tomaram o destino do Reino do Quase, o maior, mais distraído, mais cruel e mais abarrotado reino do universo.