sexta-feira, 9 de março de 2012

tempos cruéis

Nesses tempos nossos, ninguém tolera o sofrimento. É providencial que você seja sempre alegre, afinal só quem tem pensamento positivo prospera. Depressão? Nem ouse, esconda-a, esconda seu rosto choroso, jogue um lençol sobre seu corpo. O mundo exige que seu braço seja forte, que sua psique seja vazia, que você ostente apenas um largo e inexpressivo sorriso na cara. As doenças do espírito não são propícias para os tempos atuais. Afinal, as igrejas são inúmeras, os centros terapêuticos inúmeros, os livros de auto-ajuda ganham o mundo. Onde pode haver um lugar para poder ser triste ou estar triste em paz? Nenhum amigo mais dá seu ombro, como em outros tempos; apenas diz com autoridade que é preciso que você saiba que existem pessoas em piores situações; seu ex-psicanalista diz com a arrogância disfarçada em pedantismo que já passou da hora de você se livrar da carência do outro. Na verdade mesmo, o que percebo com tristeza absoluta (se me permitem) é que a ditadura do egoísmo colocou no mundo seres petrificados e terminologias baratas de felicidade, salvo um ou outro ser que ainda conhece profundamente a linguagem do consolo e da solidão.

5 comentários:

Tania regina Contreiras disse...

É verdade. Por isso acho que a Arte salva. Aí você pode sorrir, chorar, dar forma, cor, luz ou sombra ao seu sentimento. A Arte: uma luz no fim do túnel, sempre. Boas reflexões.
Beijos,

Lidi disse...

Oh, Ângela, me identifiquei tanto com o que você escreveu, que fiquei sem palavras. Deixo aqui, então, o meu silêncio de amiga. Lembra? Bjs

Bípede Falante disse...

Tenho muito respeito pela melancolia que me diz quem sou e quem o outro é.
Beijosss

Naiana P. Freitas disse...

verdade, Aeronauta. Ratifico sua ideia...defendo-a também, principalmente quando acesso as redes sociais e só vejo a felicidade pública o tempo inteiro..Todos teatralizando sua vida como uma propaganda de margarina eterna.

Abraço!!!

Sandra disse...

"Minha alma está morrendo. Aos poucos a sinto esvair-se. Apesar de um corpo jovem, tenho uma alma cansada. Cansada do poder de decisão que exerci no mundo. O meu corpo encontra-se debilitado de energia. A energia dos que sonham. Há algum tempo parei de sonhar. De almejar objetivos e fantasiar o meu futuro. Não conheço a sensação da conquista de um sonho realizado. O percurso para conquistá-lo não é vivido por mim. Tudo me parece sempre um ponto final. Minha alma está cansada....fatigada e morrendo. Talvez se eu sobreviver a essa passagem, de sentir-me morta, ainda viva, eu jamais seja igual a antes. Certamente serei, finalmente, triste."
Talvez em um mundo que se diz tão "democrático", nem todas as expressões são aceitas. É insuportável aquela fal de muitos de que é ruim ser triste. Hoje, acredito eu que a verdadeira felicidade, não a vendida através do consumismo exacerbado, só seja possível para quem de fato triste foi...e voltará a ser. Abraço.