sábado, 15 de março de 2008

Crônica de uma matança anunciada

Sempre quis te dizer isso: você é mais um covarde sobre a face da terra. Gosto dessa expressão "face da terra": é muito familiar, a gente falava isso lá em casa todos os dias. Como seria a face da terra mesmo? Não, você não sabe, você é um covarde. Treme de medo de ser só, completamente só, de morar sob ruínas, de dormir no chão duro, de voltar a ser homem da caverna. A caverna lhe dá medo, aliás, tudo lhe dá medo, você é um medroso de marca maior. Gosto dessa expressão "de marca maior" - também é muito caseira, a gente lá em casa falava assim com tranqüilidade. Você é o remanescente de minha família, o mais antigo, talvez o mais chato de meus primos, quem sabe meu irmão-inimigo, e eu te odeio com um ódio sempre renovado. É bom, claro, sentir ódio, e não só amor: o ódio nos dá vontade de dar beliscões no ar, tapa na cara do vento, mandar passarinho embora como fez Vinícius de Moraes tão bem: "Deixa-te de histórias / Some-te daqui!"
Não quero prosa com você, o que queria mesmo era te dar um cascudo. Cascudo parecido com aquele que recebi aos sete anos, de uma amiga da onça, só porque falei "arto falante" e não "alto falante". "Coc!" foi o som que zuniu na minha cabeça. Queria descontar agora esse cascudo em você. E esse cascudo seria para rachar sua cabeça; só para ver os grandes bichos que sairiam de dentro dela: certamente bichos mitológicos, presunçosos e arrogantes. Olhe, esse é o tamanho de minha raiva, estás vendo? Vês como está crescendo? Vai, cada vez mais, tomando proporções infinitas. Você é mais uma névoa no pára-brisa do carro, uma gastura na minha alma, e eu tenho vontades de me ver livre de você. Por que não dar um murro na tua barriga e te fazer desaparecer? Por que não queimar tua casa e tuas roupas e tua cara desavergonhada, que sempre ri? Ah, homem dos infernos (essa expressão é conhecida, acho que minha avó falava assim, minha mãe também), repito, "ah, homem dos infernos", desapareça de minhas vistas, já que você nunca teve coragem de me amar com o amor mais comum possível. Ih, chega de conversa! Vou agora mesmo apertar o gatilho

2 comentários:

Marcus Gusmão disse...

Muito prazer em ler os dois textos. O do desabafo e mais ainda o da semântica do desabafo. Gosto muito da palavra gastura. Gastura na alma ficou melhor ainda.

Silvia disse...

eu não sabia que vc me odiava tanto!Não se incomode eu te amo por nós duas, entendo tuas deprês e outros gostos mais que sei que tem, por mim vamos ser amigas para sempre!Não levo teus ódios tão a sério...