domingo, 9 de março de 2008

Morrendo um pouco...

O que fazer para fugir do tédio, ou para enfrentá-lo? Fazer um poema cuja temática é aquela da vida besta, inventada por Mário de Andrade e que teve em Drummond o seu grande momento? Eta vida besta, meu Deus, repito sem o cuidado de colocar aspas. O que direi amanhã para o psicólogo? Que continuo doente? Que sou uma doente sem cura? Que nunca mais terei alta? E que seu consultório precisaria de uma janela? Que aquele ar condicionado me deixa gelada por dentro? E que aquele divã não tem beleza estética? Que tudo lá dentro é um simulacro? E que tudo aqui fora também é? E que dialogar com alguém, por cinqüenta minutos, uma vez por semana, é uma cena teatral? Que tento sempre dizer a verdade, mas que esta não existe, assim como eu também não existo? Nem ele? Que tudo é tão óbvio, que tudo é de uma previsibilidade chata, que tudo é nojento, que tudo são fezes e urina?... É, estou em fase de morrer um pouco. E tentando captar esse momento para podermos encontrar o caminho das subjetivações psicanalíticas, dos significados metafóricos, das portas de saída. Ah, por que estou aqui?, me diga; me responda o que nunca entendi: a vida, a vida, a vida, repetição exaustiva. E que ele não me venha com olhar compassivo de quem conhece tudo isso e que conseguiu sua cura! Não, nunca ninguém se curou, não há auto-ajuda, nem Freud, nem Jung, nem ninguém que cure essa doença. Só a literatura, acredito. E ela vai me remendar por dentro, tecido por tecido...
Desligo o computador...
Busco um livro...

7 comentários:

Kátia Borges disse...

Ai, Aeronauta, e se nem a literatura nos salvar ou ao menos nos remendar por dentro? Medo!

Carlos Barbosa disse...

Minha cara, ninguém sabe quem verdadeiramente é. Todos temem os próprios pensamentos, alguns impulsos. Todos escondem algo tenebroso, criminoso ou repulsivo. Tudo é máscara, fingimento. Ninguém é forte por inteiro. Ninguém é capaz sempre. Todos erram, todos falham. Palhaços sem picadeiro. Tudo é, sim, fezes e urina. E dor, muita dor. Mijo no mundo, cuspo nas poses, cago pras opiniões. E entre uma coisa e outra, procuro gozar bastante o que me resta de vida. E rio de mim mesmo, sempre que posso. Hoje é domingo, banzo e despreparo. Todo meu carinho e um forte abraço. Diga ao seu psicólogo uma piada pesada, ou duas, se preferir. E aproveite pra rir um pouco em plena segunda-feira. Minha amizade, abr. (carlos)

Maria Muadiê disse...

Obrigada pelo que disse lá no blogue. Fiquei emocionada.
Quanto ao tédio, o jeito é vc inventar também. Pelo menos na maior parte do tempo devemos fazer de conta que acreditamos no jogo ;)
um beijo,
Martha

Críticas Criticáveis disse...

Oi nautinha, escreve mais e mais q vc c cura rapidinho!

Personagem Principal disse...

Em 10 anos, me entediei de tanto me perguntar essas coisas. A boa notícia: tive alta.

Bjs.

Oblon disse...

Dizem por aí que "a literatura é uma saúde". Acredito.

Luíza disse...

..ô que texto bom hein aeronauta.. por mais que fale das intervenções ruins da vida...
mas com certeza, escrever pra fugir do tédio é um bom remédio..
beijooo