sábado, 22 de março de 2008

preciso de um poema

passar tudo isso em silêncio, em profundo silêncio. sem ouvir nenhuma orquestra reger por dentro. nada, absolutamente. para que ovos de páscoa? para que sorrisos sem graça? para que telefonemas enviando palavras gastas de felicidade? nada, é melhor ficar aqui, quietinha, esperando tudo isso passar. é melhor. digo é melhor e nem sei mesmo o que é melhor. melhor talvez era eu dedilhar essas palavras na minha drummondina, tão sábia, tão infantil, tão velha. ah, minha drummondina, que falta você me faz. não me lembro de ter escrito em você em pleno sábado de páscoa. acho que não. sempre fui avessa a datas vermelhas no calendário, ou, melhor dizendo,na folhinha. lá em casa mãe colecionava folhinhas: na cozinha, no quarto, nas duas salas. folhinha de gato, folhinha de criança sorrindo, folhinha de paisagem. era muita folhinha, meu deus (desculpe, meu deus, escrever teu nome em letra minúscula, mas hoje não alcanço nenhuma letra maiúscula). era tanta folhinha que o tempo cismava em passar devagar. os dias eram do tamanho de uma eternidade. uma eternidade eloqüente, sem qualquer silêncio. aqui só o ventilador faz zum, querendo conversar comigo. não, a eloqüência lá na outra casa era de mãe. mãe amanhecia falando falando falando. o ventilador perdia e muito para ela. enquanto que aqui, agora, só o ventilador fala. a mesma conversa monossilábica, ritmada. para lá e para cá. mãe não veio passar a páscoa comigo. o mundo resolveu me dar um tchau para descanso, sabe que não gosto de datas vermelhas. feriados têm cara de vazio. enquanto isso, insisto em falar comigo. essa prosa inútil, inútil. se você estiver me ouvindo, reze um poema para mim agora. de bandeira, de cecília, de drummond, de murilo, de quintana, de hilda hilst, de kátia borges, de mônica menezes, de orides fontela, de emily dickinson. seres que sabem muito bem o que estou falando, o que estou sentindo agora. nesse sábado safado e silencioso. vá, por favor, reze, preciso de um poema.

2 comentários:

Carlos Barbosa disse...

Rezo este poema de Sophia de Mello Breyner Andersen, "Dia de hoje": "Ó dia de hoje, ó dia de horas claras / Florindo nas ondas, cantando nas florestas, / No teu ar brilham transparentes festas / E o fantasma das maravilhas raras / Visita, uma por uma, as tuas horas / Em que há por vezes súbitas demoras / Plenas como as pausas dum verso // Ó dia de hoje, ó dia de horas leves / Bailando na doçura / E na amargura / De serem perfeitas e de serem breves." Abr. (Carlos)

Críticas Criticáveis disse...

Esse pequeno poema d drummond inspirou um pequeno livro meu, qdo tinha 14 anos:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava
Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos,
Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre,
Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Adoro Drummond!