domingo, 26 de julho de 2009

Consulta


Estava tentando dormir quando ouvi um rebuliço na sala: muita felicidade. Felicidade é coisa zoadenta. As pessoas riam, festejavam. Vi que não iria conseguir continuar o sono; então prestei atenção no que acontecia. E o que acontecia era uma rodada de tarô. Uma colega lia para uma fila de gente. Vibravam com o que as cartas diziam. Cartas boas, muito boas, percebi, pois todo mundo ria de felicidade. Carente de boas novas, dei um pulo da cama e entrei na fila. Claro, queria felicidade também; quem não quer? Demorou pra chegar minha vez. Quando chegou, sentei, e senti que a cadeira estava quente; tantos passaram por ali. Sentei na pontinha, como faço quando isso acontece.
A colega pediu que eu embaralhasse o tarô. E partisse. E lhe entregasse, se não me engano, cinco cartas. Lembro-bem bem de três, vindas enfileiradinhas: a torre, a morte e o eremita. Ela olhou pra mim e disse que era morte; morte minha. E agora? Eu iria morrer? Já? Pelo jeito, sim. (Ah, Maca, me lembrei de você. Só que a cartomante lhe enganou, lhe falou que a vida lhe daria um homem lindo, enquanto que a vida lhe deu foi outra coisa.) Fiquei parada, olhando pra ela; e ela me perguntou se eu estava com medo. Disse "um pouco". Ela tentou contemporizar dizendo que talvez fosse morte de alguém próximo a mim, um parente, um amigo, um amor. Ai, doeu mais ainda. Me perguntou se eu estava indo a médico, fazendo exames. Respondi que sim. Perguntou se estava tudo bem. Sim, tudo. E a melancolia? É, continuo tendo. Então, cuidado, ela afirmou, minha intuição me diz que essa morte é suicídio. Suicídio? Aqui o drama deu uma pausa e eu respirei. Não, suicídio JAMAIS, falei alto. E agora? Como continuar a morrer? É, ela disse, pode ser então, mesmo, alguém próximo a você; mas é uma pessoa bem próxima, pois quando num jogo cai a torre junto com a morte não tem jeito.
Final da consulta. Olhei bem as cartas sendo arrumadas, guardadas por ela num pano marrom. No seu braço, simultaneamente, uma pulseira tilintava.



Imagem: "Ondas", por Macarenana:P.
(www.flickr.com)

7 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Pô, Aero, vim do blog de Jana chorando de um jeito. Leio seu texto, continuo a chorar. De outro jeito e maneira.

Carlos Barbosa disse...

Literatura é salvação. Sem a literatura, o que fazer da vida? o que fazer com certos antropóides que atravancam nosso caminho? Aérea Persona, purifique-se pela escrita, assim, eternize-se. E deixe pra trás esses seres rastejantes. Abr. (carlos)

Katia Borges disse...

Poxa, demais!

F. disse...

Ai!!!vixe..o que dizer??
hum...não sei, de fato não sei.
Abraços!!!

Nilson disse...

Não curto o tarô: sou mais o I Ching. É verdade que o I Ching é menos dramático, mas já li um livro ('O homem do castelo alto', de Philip K. Dick) todo feito em torno dos hexagramas do I Ching. de qualquer forma, não tem um veredito assim como esse do seu personagem no Livro das Mutações!!!

Gerana Damulakis disse...

"Como continuar a morrer?" Excelente; alías, excelente vai ser seu sinônimo de texto de aeronauta.

LÍVIA NATÁLIA disse...

Macabro e lindo. É possível? No seu texto sim. Mas não se preocupe. Retire as cartas de novo - talvez com nova cartomante. Para além de Macabéa sempre existe uma segunda chance.