quarta-feira, 22 de julho de 2009

Isso é uma confissão

Vivi com ele sete anos.
O número sete, cabalístico, convence mais na vida que na literatura.
E o que estou contando é algo próprio da vida, nitidamente real. A literatura não conseguirá pernoitar o que aconteceu. Quero aqui tratar de confissão.


Na minha vida usei duas alianças. É, duas. Uma era meio moderna: tinha umas fissuras por fora, enfeitando-a. No dia em que a ganhei sonhei com um sapo. Nada demais. Havia lido Bufo e Spallanzani. Essa aliança viveu duas vidas diferentes. Na primeira de maneira desconfortável, pois que o dedo estava gordo. Na segunda, acabou caindo no ralo do chuveiro enquanto eu tomava banho.
A outra aliança que usei foi por demais solene. Tinha o nome dele por dentro. Nunca a tirei pra lavar pratos: sabia que era de ouro, não corria risco de desbotar. Ficava linda no meu dedo: vi isso numa remota fotografia, enquanto era homenageada na sala de aula. Um aluno me abraçava e a aliança ficou bem na frente, cheia de aura, iluminando a cena.


Exatamente sete os anos que vivemos. Por isso é confissão. Se fosse literatura, repito, não convenceria. Ficaria presunçoso, arrogante, pretensioso. E eu estou confessando: vivi com ele sete anos. Não há nada demais nisso, é cabalístico apenas, próprio da vida. E dizer isso não é coisa de mulher. Homem diria também. Ele, por sinal, diria melhor, e de maneira romântica, enquanto que estou sendo crua.


Aliás, quero, nesse relato, ser crua. Todo e qualquer romantismo me apavora. Vestida com um tecido cor de rosa, casei no fórum, num dia de semana. Ele chorou na hora de me dar a aliança. Nas fotografias, demonstro uma vida estranha nos olhos, uma vida que nunca tive; vida real. É, aconteceu de verdade, isso é uma confissão.

17 comentários:

Luli Facciolla disse...

Uau!
Amo passar por aqui!

Beijos

Janaina Amado disse...

Só quem entende muito da vida e da literatura pode escrever um texto assim.

Gerana disse...

Excelente, excelente, excelente,
excelente, excelente, excelente,
excelente!

Renata Belmonte disse...

O que posso dizer?
De boca aberta!
bjs

F. disse...

Percuciente!!!
Abraços!!!

Andréia M. G. disse...

Maravilhosa confissão! Adorei!

Maria Muadiê disse...

lindo, que texto lindo, amiga.
"sete mil vezes eu tornaria a viver assim/ sempre contigo transando sob as estrelas..."

Lord Broken Pottery disse...

Vi seu comentário no blog da Janaína e fiquei curioso. Que texto alguém que os conhece tão bem teria elogiado? Vim correndo ler, curioso. Puxa, quanta qualidade. Tive que me conter para não acrescentar alguns pontos de exclamação.
Beijo

Bernardo Guimarães disse...

esta confissão foi mais forte que a minha, quando da primeira comunhão ( rs...)

Nilson disse...

Muito! Isso é literatura de mão cheia, embora a voz da narradora insista em dizer que não se trata de literatura. Bravo!!!

maria guimarães sampaio disse...

Isso é uma confissão. Isso é uma beleza.

Lidi disse...

Com você, Aero, confissão é também literatura!! Um beijo!!

Kimangola disse...

"uma das alianças
tinha umas fissuras por fora"

adorei essa...


xaxuaxo

salvador-rio de janeiro disse...

nada de romantismos, aeronauta...? ah... me deixe, viu? bj, sandro

Jasmine Osaky disse...

Não gostei de você ter postado uma foto MINHA sem autorização e sem ao menos me conhecer.

Jasmine Osaky disse...

Não gostei de você ter postado uma foto MINHA sem autorização e sem ao menos me conhecer.

aeronauta disse...

Cara Jasmine:
Postei a sua foto com crédito. Estava no flickr. E acredito que estando no flickr, sem endereço, é impossível pedir autorização. Como você não gostou, faço questão de apagá-la.