quinta-feira, 9 de julho de 2009

Iniciação, Parte I


Estava no sindicato de pai quando vi o caixão roxo de defunto vindo de lá pra cá, acompanhado de um monte de gente. Me escondi debaixo daquela mesona grande do sindicato, chorando e tremendo. Dois dias depois surgiu a hepatite. Mãe não perdeu tempo, dizendo que foi por causa do caixão. Ela reiterava que criança não podia ver caixão, não podia. Por isso tanto nos poupou da morte, deixando-nos imperativamente longe, sempre longe, de velórios e afins; mas naquela segunda-feira o enterro passou bem perto, na porta do sindicato. Então, resultou nisso.
Daquele momento em diante fiquei fraca, amarela, meus seis anos aprendendo a usufruir as doçuras da doença: todas as regalias do mundo agora eram para mim. Poupada da escola, a professora fazendo visita, minha irmã me olhando na porta do quarto com um olhão de pena... Eta vida boa. Fui ficando cada dia mais amarela, cor que se cravou em mim com a força de um quadro. Olhava minhas unhas e mãos, tudo amarelo de dar gosto. Pra mim quanto mais doente melhor, pois assim teria muito dengo, e mil cuidados.
Essa fase é a que trago na minha memória com mais doçura. Acho que gostei de ter hepatite; o que não gostei mesmo foi de ter visto o caixão de defunto. Não, tal lembrança eu afugento, jogo pra longe, no meu baú de espantos. Ainda mais que essa aparição é alusiva para tentar esclarecer meus nervos fracos. Data daí a especulação familiar, o cuidado ostensivo em me guardar do mundo. Pai dizia, às escondidas, para os parentes, que eu era uma menina nervosa, estava sujeita à queda de nervos. É, queda de nervos - essa expressão é a cara de pai. Ele que também sofria de muito nervoso, juntamente com os irmãos, principalmente as irmãs, sempre descabeladas, gritando ai meu Deus no meio da casa cheia de gente. A loucura pairando, ainda que um pouco civilizada: nada de jogar pedras, até hoje nenhum parente jogou pedra. Mas a verdade é que sempre pairou, inquieta, e meus olhos assustados de seis anos já exprimiam o medo dela.
Com a doença veio minha primeira viagem de ônibus. Não sabia o que era isso, só de ouvir falar, ou de ver nas imagens do meu livro do primário. Lá em minha terra só tinha kombi. Diziam que ônibus era uma kombi maior, porém mais perigosa. Agora minha preocupação era ter que andar na kombi grandona e perigosa. O resultado desse medo deu-se em prenúncios de insônia às vésperas da viagem. No dia fomos para a cidade próxima, a fim de pegarmos o bendito ônibus para Salvador. Quando vi o bichão na rodoviária (nunca esqueço: era verde e espichado) comecei a espernear, falando na maior das alturas: "não quero andar de ombo não, pai" e todo mundo olhando e rindo. Essa foi minha primeira vergonha pública.
Queda de nervos, queda de nervos, pai sempre repetindo pra mãe a preocupação dele comigo. Mas, entre choros e novos espantos, lá ia eu para a capital. Chupando lima adoidado, na estrada toda. Dentro do ônibus vi que não era tão ruim assim, e tocava música. Até hoje identifico a música que tocava, aquela que fala do portão, de Roberto Carlos. Fui me embalando no colo de mãe, e cheguei a dormir. Lembro do colorido que tinha Salvador nos meus olhos de seis anos. Lembro sim. E no hotel uma televisão enorme, em preto e branco, coisa que até então não conhecia. Depois a rua, os médicos, os exames. E lima, muito suco de lima, e caixas e caixas de remédio. Comecei a colecionar caixas vazias, e fazer delas meu brinquedo preferido.
Na volta para casa, mais dengo ainda. Tudo que tinha no mundo era meu. Comecei a perceber a força que a doença traz a um vivente. Mãe comprava bolachas maria e quebrava-as no café, dando-me na boca. Ou então aquelas bolachas com formato de bicho. Eu adorava comer aqueles bichinhos, depois de bem molhados no café. Mas sempre colocados na minha boca pelas mãos de mãe. Adorava não ter que fazer nenhum esforço nesse mundo, e ganhar de quebra aquele dengo bom. Quem não estava gostando nada disso era minha irmã. Agora que ela tinha visto que eu não ia morrer, não tolerava aquela doença; queria reconquistar seu espaço, sua posição de filha mais velha e adorada.
Acho que foi para manter a atenção do mundo voltada para mim que eu nunca quis perder o epíteto de menina doentinha. Nunca fiz um esforço sequer para sarar. Não sabia que quem nasceu com algumas heranças não precisa se preocupar com isso. Eu não iria sarar nunca mesmo. Outros espantos viriam. Com noites de insônia; com telhados se transformando em caras estúpidas de gente; com todo mundo dentro de casa roncando; com o último morto da cidade rondando o quarto.
A hepatite foi apenas meu primeiro estágio.



Imagem: "Iniciação", por Luana Ferreira.
(www.flickr.com)

14 comentários:

Renata Belmonte disse...

Maravilhoso. Simplesmente, maravilhoso.
bjs

Bernardo Guimarães disse...

existe expressão melhor que estupendo? que seja!

PS: brigado pelo carinho de sempre quando surgem as noticias do interior...

Daiane disse...

Muito linda a forma como descreve suas lembranças...

Gerana disse...

Danado de bom, que texto, é de aplaudir de pé.

Anônimo disse...

Herica

Aeronauta é sempre muito bom ler seus textos. Neste momento gostaria de escrever alguns sentimentos que aflorararm em mim ao ler esse texto, mas não consigo encontrar as palavras.

bjs

Nilson disse...

Sensacional! E queda de nervos é realmente um achado. Beleza de universo, esse seu!!

Viviane Costa disse...

Eita texto bom de ler, Nauta! Viajei, chupei lima e senti o dengo de mãe junto com vc... Lindo de morrer!
Beijocas. :)

Janaina Amado disse...

Ah, menina doentinha, aquele caixão foi o começo de tudo! Já imaginou se ele não tivesse passado por perto? Você tava até hoje sem ter suas regalias, he he
Belo texto da descoberta da primeira persona!

Chorik disse...

Mais um primor. Vai ser duro fazer uma antologia dos teus melhores textos. Tua escrita me fascina mais e mais a cada dia. Beijão aero.

LÍVIA NATÁLIA disse...

Como sempre, cada vez mais lindo.
Aero, te ligo amanhã. Tenho projetos!

Bjs!

Lidi disse...

Eu também, de vez em quando, gostava de ficar doente, para ser cuidada (com muito dengo) pela família inteira: mãe, pai, 3 irmãos e 2 irmãs (sou a mais nova). Aero, você nos conta tão lindamente as tuas memórias, que me encanto a cada novo post. Concordo com o Chorik, seria difícil fazer uma antologia dos seus melhores textos! Um super beijo!

maria guimarães sampaio disse...

Grande texto, Aero.
Também fui menina doentinha, dengadinha. Em compensação hoje sou uma velha que caga e anda para as doençadas mas continua bem dengada.
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meu espaço blogueano tá dodô... sem atualizar as atualizações dos colegas.

Fragm disse...

Lindo demais este texto!!!
Inspirada em você, resolvi me aventurar no mundo da escrita!!!
Acho que dará tudo certo!!obrigada pelo generoso comentário em meu blog!!!
abraço!!!

Bárbara disse...

Aeronauta, esse texto é lindo. Estabelece uma relação de intertextualidade com o post 'Sentimentos humanos' do blog NÃO LEIA.
Tenho um filho de 8 anos, desejo para ele toda saúde possível, mas gosto muito de ficar perto dele,cuidando, quando está dodói.

Adorei! Beijos!