terça-feira, 28 de julho de 2009

mente solta


Olhe, estou fazendo o exercício que você mandou. E a primeira imagem que me vem à mente é um gramofone. Depois um elefante. É assim mesmo? É essa besteirada toda? Meu filho, eu não sou oriental, não sou zen, nunca serei. Quando você manda eu fechar os olhos e deixar minha mente se soltar, ela fica louquinha. Mente solta: eis a minha maior loucura. Agora mesmo: gramofone com elefante. Não, por favor, nada de simbologias. Eu sei o que você dirá ser um gramofone. Mas e o elefante? Seria o quê? Talvez essa minha leseira diante da vida. Essa docilidade amarga, pesada e leve ao mesmo tempo. Ai, quanta coisa clichê, repetitiva. Menino, por que insisto? Minha irmã disse que eu me curaria diante de um tanque cheio de roupa suja pra lavar. Ela está certa: melancolia é doença de lorde. Uma enxada, por favor; um sol torando... Sol torando me lembrou de pai. Ele sempre achava Triste Partida a música mais triste do mundo. Cantava com um choro tão longo como a música. Está vendo o que dá mente solta? Fui cair em Luiz Gonzaga. Vamos continuar. Ih, o tic tac tic tac tic tac do relógio está interferindo. E o ar condicionado vai esfriando minha barriga, meu estômago, de uma maneira esquisita. Por que você está com os olhos fechados? Pra que isso, Jesus? Sou eu ou você quem tem que fazer esse famigerado exercício? Por falar em olhos fechados, posso continuar com os olhos abertos? Detesto fechar olho, detesto. Me sinto ridícula fechando os olhos. E minha mente se solta sem precisar tanto ritual. Olho pro seus pés e me lembro que minha irmã um dia disse que você tem pés de santo. É, pés de, mal comparando, São Francisco. Uns dedos finos num pé pequeno e delicado. Minha irmã não tem jeito, esculhamba todo mundo. Se você soubesse o que ela já falou de você. Deixe pra lá, no final ela gosta desse cuidado que você tem comigo. Por que sei que esse negócio de exercício de mente solta, além de muitas outras coisas, é cuidado, é amor. Amor fraterno, adocicado, calmo, bom de sentir. Está certo, deixe eu tentar voltar a fazer o exercício. Minha língua se solta tanto quanto minha mente, esse é o problema. Porém, minha mente é pior. Minha mente na verdade é um turbilhão. Automóvel a mil quilômetros por hora, carro descontrolado no mundo. Se eu não freá-la, como posso ver as imagens que dela brotam em seus contornos? Um braço, um rosto, um boneco de sabugo de milho muito bem vestido, um sol se pondo, pé sangrando, uma camioneta azul, cacarecos num quintal, deixe eu ver mais... Eta, quanta parafernália inútil. Já chega, não?, esse tributo ao vazio.


Imagem: "Estilhaços 17", por Matoso Itabira.
(www.flickr.com)

3 comentários:

bípede falante disse...

Se o lance é mente solta, vou te dizer o que passou pela minha cabeça. Gramofone é uma vagina e elefante um pênis, bem grande, diga-se de passagem :)

Gerana disse...

Um tributo ao vazio paradoxalmente pleno de imagens. Vc é D+.

Nilson disse...

Mente solta, e também a pena: muuuuito bom o texto. A Aeronauta em sua melhor forma!!!