A configuração desse "blogger" não me deixa mais adicionar imagens; por isso sinto-me fora de casa. Os textos ficaram viciados: querem vir, desde que ilustrados por imagens. Sem elas nada feito. Estou desbotada por dentro, igual a essa página.
Procura-se um consertador de blogger.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
saudades
Nas primeiras páginas de Aurélia, capítulo intitulado "Prelúdio para a vertigem", Gérard de Nerval pontua:
"Somente pela consciência se deve evocar os mortos. Sua vida é sempre triste e terrível, pois eles sofrem com nossas faltas".
Sempre tive uma assustadora memória dessa sentença. Inconscientemente, sem a conhecer, a acolhia. Lendo-a, a reconheço. Nunca acreditei que os mortos têm felicidade plena pelo fato de terem descoberto o mistério da passagem. Ou, de lá onde estão, numa outra efervescência de ar, terem se transformado em sábios, numa bem-aventurança de fazer inveja. Sempre intuí ser difícil para eles a morte. Difícil. Intuí porque meu contato mais próximo com a morte foi com uma pessoa que eu conhecia, que eu conheci vinte e seis anos. Pessoa amorosa, que não ficava uma semana longe dos seus sem um sofrimento profundo. Que viajava para Salvador e quando voltava, com a maleta cheia de livros e presentes, transbordava de felicidade pelo retorno.
Ligado profundamente à família e à vida, ao rádio e ao seu jornal, pai tinha terrível medo de morrer. Ao saber da gravidade de sua doença, não aceitou a morte, não aceitou. Acreditava que não iria morrer, que ficaria bom, que levantaria daquela cama, daquela cadeira de rodas, e voltaria a cuidar de sua roça, de seu carro, e sentar-se na porta, de tardezinha, conversando com os que passavam. Gritando de dor, tomando morfina, aliviava-se e voltava à vida. Queria sua família por perto, todos eles. Não, nunca pensou seriamente que iria morrer. Não suportaria o desconhecido, principalmente a distância de dois mundos.
Quinze anos após sua partida, de cá sinto que ele sofre, que sente saudades da gente. Sinto às vezes sua presença perto de mim, sua presença amorosa me dizendo coisas, e lamentando eu não ter olhos para ver-lhe sentado ao meu lado, e não sentir seus braços me abraçando. Onde está, os dias são longos, e as noites insones são largas para muitas lembranças. Lembranças nossas, de sua roça, do quintal lá de casa, da praça onde jogava dominó com os amigos.
Dizem que o desapego é a prova da sabedoria. Se for assim, meu pai nunca será sábio: ele, por demais amoroso, por demais humano, nesses quinze anos não se esquece de nada; e chora, sei, chora ao nos olhar de longe.
"Somente pela consciência se deve evocar os mortos. Sua vida é sempre triste e terrível, pois eles sofrem com nossas faltas".
Sempre tive uma assustadora memória dessa sentença. Inconscientemente, sem a conhecer, a acolhia. Lendo-a, a reconheço. Nunca acreditei que os mortos têm felicidade plena pelo fato de terem descoberto o mistério da passagem. Ou, de lá onde estão, numa outra efervescência de ar, terem se transformado em sábios, numa bem-aventurança de fazer inveja. Sempre intuí ser difícil para eles a morte. Difícil. Intuí porque meu contato mais próximo com a morte foi com uma pessoa que eu conhecia, que eu conheci vinte e seis anos. Pessoa amorosa, que não ficava uma semana longe dos seus sem um sofrimento profundo. Que viajava para Salvador e quando voltava, com a maleta cheia de livros e presentes, transbordava de felicidade pelo retorno.
Ligado profundamente à família e à vida, ao rádio e ao seu jornal, pai tinha terrível medo de morrer. Ao saber da gravidade de sua doença, não aceitou a morte, não aceitou. Acreditava que não iria morrer, que ficaria bom, que levantaria daquela cama, daquela cadeira de rodas, e voltaria a cuidar de sua roça, de seu carro, e sentar-se na porta, de tardezinha, conversando com os que passavam. Gritando de dor, tomando morfina, aliviava-se e voltava à vida. Queria sua família por perto, todos eles. Não, nunca pensou seriamente que iria morrer. Não suportaria o desconhecido, principalmente a distância de dois mundos.
Quinze anos após sua partida, de cá sinto que ele sofre, que sente saudades da gente. Sinto às vezes sua presença perto de mim, sua presença amorosa me dizendo coisas, e lamentando eu não ter olhos para ver-lhe sentado ao meu lado, e não sentir seus braços me abraçando. Onde está, os dias são longos, e as noites insones são largas para muitas lembranças. Lembranças nossas, de sua roça, do quintal lá de casa, da praça onde jogava dominó com os amigos.
Dizem que o desapego é a prova da sabedoria. Se for assim, meu pai nunca será sábio: ele, por demais amoroso, por demais humano, nesses quinze anos não se esquece de nada; e chora, sei, chora ao nos olhar de longe.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
a existência, talvez
Nunca estive nesse lugar: a atmosfera é outra e um astro mais ofuscante que o sol não muito longe fulgura.
(Kafka)
Vez em quando, andando na rua, dá-se um estalo. Em mim algo se quebra, a existência talvez. É preciso continuar andando, ir ao banco, depois almoçar, depois viver. Vidro partido dentro do peito, água transbordando no corpo, olho parado no vácuo. Será isso o nada? Será isso a infelicidade? Será isso a sombra? O que será isso? pergunto, pergunto, pergunto, pergunto: quatro vezes. Se você tem a chave, me dê. Porque toda vez que o vidro estala, meu corpo se recolhe. Deita-se na cama, e dorme. Não há como catar os estilhaços: é tudo por dentro, misturado com o sangue que se petrifica.
(Kafka)
Vez em quando, andando na rua, dá-se um estalo. Em mim algo se quebra, a existência talvez. É preciso continuar andando, ir ao banco, depois almoçar, depois viver. Vidro partido dentro do peito, água transbordando no corpo, olho parado no vácuo. Será isso o nada? Será isso a infelicidade? Será isso a sombra? O que será isso? pergunto, pergunto, pergunto, pergunto: quatro vezes. Se você tem a chave, me dê. Porque toda vez que o vidro estala, meu corpo se recolhe. Deita-se na cama, e dorme. Não há como catar os estilhaços: é tudo por dentro, misturado com o sangue que se petrifica.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Tua imagem

Ah, a imagem do amor, tua imagem, no recanto da sala. Tem uma luz macia, mortiça, de candelabro do século dezoito, com poucas velas reunidas, numa claridade calma e amena.
A vontade é de dormir sob teus olhos, agasalhar-me sob as sombras que tua alma prenuncia, legítimas - como as sombras das árvores.
Imagem: "Comes love, nothing can be done", por Pri Martins.
(www.flickr.com)
sábado, 12 de setembro de 2009
a sombra e o silêncio

A sensação é que o deserto é amplo; o ar seco; o sol escaldante. Eu estou só. Mas não há silêncio. Acordo com as costas ardendo na areia quente e me deparo com minha sombra sentada ao meu lado. Solidão é estar acompanhado dessa sombra. Eloquente: fala tanto que não me deixa encontrar o grande silêncio. Há muitos anos estou aqui e nunca o ouvi. Tem muito barulho dentro de mim. Vozes provenientes de casarões antigos, de corredores imensos, gemendo, pedindo alento. Ou então, damas de salão clamando por música, mais música, porque a festa não pode nunca acabar. Cortesãs vestidas de vermelho alçando seu amante pela camisa e a grande imagem vista no espelho da frente. Ah, a balbúrdia nesse deserto é aviltante. Meu corpo frágil se deita, se curva e a sombra o imita. É muito difícil conviver com ela, com a memória que lhe habita, que é minha, minha, só minha, e que ela a detém. Como então roubar de vez tua imagem, essa que é a imagem do amor, e guardá-la aqui dentro, só em mim, aqui, aqui dentro, para que eu possa, enfim, ouvir o silêncio do deserto?
Imagem: Dani Burman.
(www.flickr.com)
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
diminutivos

Tenho pavor a diminutivos. Herdei tal pavor de mãe, que odeia se chamar Terezinha. Cresci ouvindo sua revolta ecoando pelos corredores lá de casa. Minha intuição ficou, acredito que por conta disso, aflorada diante dos diminutivos. Mãe, nas suas várias encarnações, intuía o peso deles; o peso não, sua inconsistência. Diminutivo não me convence. Tenho medo de gente que insiste em mostrar sua ternura com diminutivos: lindinha, queridinha, fofinha... argh! Te esconjuro!
Linguagem é coisa séria: rastros que nossos instintos bem detetivescos caçam e lêem, com a alma. Até hoje meu instinto, portanto, com relação aos diminutivos, nunca me enganou: sufixos sem expressividade, retratam o vácuo e o perigoso que há no falso.
Mãe é uma pessoa autêntica: por isso nunca gostou do nome que lhe deram. Que nos perdoem Santa Terezinha, coitada, mas esse inha, esses inhos parecem mais ganidos pavorosos. Não, nada contra os cães, mas contra essa gente diminuta que, em falsete, não sabem embalar sua "ternura".
Imagem: "partículas de identidad", por García Peña.
(www.flickr.com)
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
para onde ir

Não sei quantos rostos me deram, pressinto que foram muitos. Deixei que me pintassem com mil cores, de mil formas, com traços tênues de nuvens que se espalham, com a presença diáfana de todas as ausências. Queria ser bela, muito bela. Princesa refugiada numa torre bem alta, de lá mandando cartas, pinceladas com a mais dura de todas as pátinas: a que marca o desejo de ser amada. Escondendo-me de olhares humanos, fui doce, amarga, encantadora; embalaram-me no colo, em mil sedas; deram-me colares preciosos, anéis de rubi. Fizeram de mim o que eu nunca seria, rainha por demais delicada, com a mais macia das peles, com os cabelos mais leves, e os pés - transparentes - sobrevoando mundos. Era isso o que eu queria: ser sonho. Somente isso. Agora, completamente à vista, por demais humana, não sei para onde ir.
Imagem: "atingire_diafana_by_spirala", por nhoccon2004v.
(www.flickr.com)
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