terça-feira, 6 de maio de 2008

"ABC das máquinas"

Adoro tudo que é antigo. Livros, principalmente.
Está aqui nesse momento, perto de mim, um espécime raro: "Quadrante", volume 2, livro que reúne crônicas de Drummond, Cecília, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, etc. Data: 1963. As páginas estão tão finas, o livro tão surrado, coitadinho... Na primeira capa o nome de um dono antigo: "José Ricardo da Silveira", e o ano de aquisição: "1967". Tudo isso me dá uma certa nostalgia: sinto que cada página traz vestígios de dedos que nunca conhecerei. A letra de José Ricardo é altiva e escrita numa caneta também altiva: é possível perceber. Fico pensando como foi a leitura que ele fez desse livro, o que ele sentiu...
De cá, de 2008, como amei ler a crônica de Paulo Mendes Campos, intitulada "ABC das máquinas"! Talvez ele, José Ricardo, não teve, claro, a mesma reação minha, já que de 1967 para cá as muitas mudanças são trazidas pelas máquinas. Paulo Mendes Campos enumera várias, e a primeira é "Automóvel - o dono do homem." "Automóvel", ninguém chama, hoje, "carro" de automóvel, o que é uma pena. "Carro" é por demais prático, por demais seco, não tem melodia, ao contrário de au-to-mó-vel, palavra deliciosa para falar. E cantar.
Há de saber que Paulo Mendes Campos não gostava de máquinas, como a maioria dos escritores. Mas ele livra uma de sua antipatia: a geladeira. Considerava que a geladeira trazia "um ar manso e repousante de uma tia gorda, pronta a fazer-nos um obséquio." "Obséquio" - outra palavra que desapareceu no tempo. Uma pena. "Obséquio" soa por demais gentil, mas nossos ouvidos, coitados, foram condenados a não mais escutar essa tão digna palavra.
Outra máquina que amei ver no abecê do cronista: "Vitrola". Diz ele: "Nunca vi uma vitrola moderna funcionando perfeitamente. São muito aperfeiçoadas, muito sensíveis. Do mesmo modo, o elepê que se preze sempre faz muito barulho. Sensibilidade."
Ah, eis o ponto que mais gosto, já que nunca fui com a cara do cedê. Sempre gostei das músicas trazidas pelos bolachões com um barulhinho de gordura fritando, e não com o fingido som límpido dessas pequenas pecinhas redondas chamadas "cd". Paulo Mendes Campos acerta na mosca: "sensibilidade". Há que ter sensibilidade para gostar de ouvir um elepê antigo, com um chiado sentimental, falando sobre as rasuras de nossa alma.

3 comentários:

Carlos Barbosa disse...

Hoje ouvi algumas faixas do álbum duplo "A arte de Vinicius". Não me desfaço dos meus bolachões e do toca-discos, claro. Aliás, os LPs voltam a ser gravados por cantores(as)no estrangeiro. Eu desconfio dos cds, que volta-e-meia apagam seu conteúdo. Abr. (carlos)

Kátia Borges disse...

Conseguiu falar com Marcus? Mandei um e-mail para ele. Bjs

Anônimo disse...

Mulher Alada, também gosto muito das coisas antigas, mas, não posso negar, adoro as novidades tecnológicas também. Beijos, saudades, Mônica