domingo, 4 de maio de 2008

Das coisas infindas


Hoje falta-me delicadeza para me envolver com o nome que tenho, para ouvir você falar, para relembrar os passados. Falta-me delicadeza para finalmente sentir a textura do domingo. A criança que guardo em mim, intacta, hoje está enfurecida. Cadê minha amiga Sílvia, para eu descontar aquele cascudo? Cadê minha irmã, oh, irmã da onça, que me fazia pagar os piores micos no jogo de baleado? Fazendo o quê? Ora, ora, fazendo com que eu não fosse ninguém: eu corria, corria, sem saber que ela já tinha armado com todos para eu ser "café-com-leite", "carta branca", ou seja, o zero, a invisível, a fantasminha, aquela que ninguém baleava, mas que corria de um lado para outro achando que estava na brincadeira. Ah, a própria Macabéa! Mas agora quero descontar. Preparem para mim uma roupa de bronze e deixem aqui na portaria do edifício onde moro. Deixem também um facão, daquele que eu tinha na adolescência dentro da imaginação, e que cortava pescoço de gente que tinha prosa ruim. Não se esqueçam, façam essa fantasia para mim: de mulher vestida de bronze, com um facão na mão. Quando chegar a noitinha, voltarei para as ruas de onde vim: enfurecida, cortando nuvens, ventos pelos jardins, como uma dura justiceira das coisas infindas

6 comentários:

Carlos Barbosa disse...

Putz! Construí a imagem da heroína... creio que necessitamos dela, a ceifar cabeças bufantes por aí. Poderia começar com a da reacionária Márcia Denser. Abr. (carlos)

Anônimo disse...

Talvez eu peça pra você me ensinar a cortar umas cabeças. Bom demais te ler. Beijos. Mônica

Críticas Criticáveis disse...

Tb queria ter esse poder, voltar, terminar oq nao terminei, mas talvez essas coisas infindas me tornaram o q sou hj e estou satisfeito ;)

Marcus Gusmão disse...

Na minha terra tem um ditado que diz que incutido é pior do que doido. Pois estou aqui comentando o seu texto mais uma vez, como um incutido. Mas não resisiti. Você me faz ver a cena da menina gorducha, com os cabelos encaracolados, toda encardida, correndo de um lado pra outro no terreiro, crente que participa da brincadeira. Perfeita.

aeronauta disse...

Resposta para Marcus:

Continue "incutido". Sua presença é sempre bem-vinda.

P.S.: Não consigo enviar comentários para seu blog. Escrevo e o comentário não segue viagem, desaparece.

Imcompreendida disse...

Gostei muito do texto... Parabens!!! Te achei no blog da senhorita B...