segunda-feira, 12 de maio de 2008

Carta ao meu pai

Fico forçando a memória, tentando tirar de lá lembranças suas, lembranças novas, ou lembranças velhas, lembranças com a ternura. Pouca coisa surge, e, todas que vêm, já relatei aqui. E não quero lembrar dos momentos terríveis de sua doença, quando comecei a envelhecer aos vinte e poucos anos. Não, não quero. Quero lembrar de sua juventude, quando eu, aos quatro anos, precisei de um remédio e o senhor viajou mais de cinqüenta quilômetros de bicicleta para comprar esse remédio para mim. Ou quando eu, com o cabelo nos mundos, vinha da festa suada, dormindo no seu colo. É lembrança repetida, sei, mas muitas vezes uma lembrança repetida salva toda uma vida do ressentimento. Do ressentimento de não reter lembranças fortes; de não guardar com nitidez uma fisionomia antiga; de, na infância, não conseguir esculpir, para sempre, um rosto querido.
A sua face é aquela que minha adolescência guarda, diluída em conflitos, nunca em abraços. Em ciúmes. Em traços antiquados de minha juventude arrogante, sempre pronta para a briga. (Todo adolescente é um sapo parnasiano, cantando na lagoa). Aí vieram os meus vinte anos, os vinte e quatro, e sua doença. A possibilidade da morte rondando a nós todos, tontos, sem atinar para nada direito. Aí minha mesquinhez desceu Paraguaçu abaixo e eu comecei a lhe emprestar dinheiro. É, para compensar minhas avarezas, principalmente de carinho. Aí o senhor foi ficando cada vez mais doente, e eu cada vez mais velha. Tinha rugas fundas aos vinte e seis anos, idade que nunca me deixará, idade petrificada, idade que eu tinha quando o senhor se foi, pouco a pouco, num dia de domingo de junho... como se uma mão distante acenasse a cada minuto menos imperceptível. Sua imagem estava indo, e graças a Deus nessa época não havia mais tradição de tirar retrato em velório. Eis porque não quero lembrar desses momentos terríveis. Quero lembrar de sua juventude plena, como naquela fotografia em que, de paletó e graveta, o senhor fez pose, para o retratista da praça, na Lapa do Bom Jesus. Eu não havia nascido, mas já tinha ido ao seu casamento. Era o que eu dizia aos seis anos para todo mundo: que eu tinha ido ao casamento de meus pais. Todos riam, achavam engraçado, e eu me sentia importante. O senhor me colocava no colo; eu, a caçula; a caçula que até hoje nunca aprendeu a assoviar, muito menos a dirigir, muito menos a nadar. E que não dança mais nas festas. E que clama por sua presença todos os dias, e chora. Para que o senhor escute, pegue sua bicicleta e volte - a fim de trazer um remédio para mim.

4 comentários:

Carlos Barbosa disse...

Minha amiga, a danada da vida não nos larga, mesmo quando perde sua essência e tranforma-se em coisa indesejada. Vc escreve bem demais. Quando nascerá o "Quando"? Abr. (carlos)

Estranha disse...

Coisa linda demais a sua escrita. Tou sem ar.

Renata Belmonte disse...

Fico me sentindo sempre assim (encantada) quando passo por aqui.
Bjs

Herica disse...

È maravilho conhecer uma pessoa tão encantadora e sensivel, tão desprendida da artificialidade da vida.
Somente um ser humano com muita sensibiidade consegue ter uma escrita que toca a alma.