segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sensação de intimidade


A chuva torna as criaturas mais amigas.
Vendo-a cair, que sensação de intimidade!


A voz é de Ribeiro Couto. Ele me faz buscar, nessa chuva incessante, uma sensação de intimidade. Busco tal sensação nos livros de poesia repousando na estante. Sentamos juntinhos um do outro, com muita intimidade, nessa manhã chuvosa, dolente e triste. Quanta singeleza e grandiosidade nessa Canção do Beijo Suave:

Tua boca delicada
Pôs na minha, docemente,
Uma carícia magoada.

Não te sei dizer ao vivo
Como foi meigo e suave
Esse beijo fugitivo,

Esse beijo de um instante,
Leve como a folha morta
Caindo sobre o passante...


Ah, poesia liricamente despretensiosa! Ah, Ribeiro Couto, como foi bom te encontrar a cinco mil réis num dos stands da Bienal! Não, não te desmereço pelo preço, apenas por saber que estavas ali, quase invisível, e eu te colhi, te trouxe para casa, antes que outros chegassem primeiro.
Apresso-me para ler em voz alta, para mim e para ele, e para você, criatura íntima, um dos poemas mais lindos do livro, o qual me encerra em mim mesma e em você, diante da brincadeira mais séria e mais lúdica do mundo: o amor.

BONECOS

Esse gesto de pôr um dedo nos seus lábios
Faz de mim um menino e dela uma boneca.
Sinto o desejo de tê-la morta, de ver por dentro
De que é feito o seu corpo.

Este gesto de me apertar contra o seu peito
Faz de mim um boneco e dela uma menina.
Sinto o desejo de diverti-la, de que o meu corpo
Caia em pedaços das suas mãos.

Como somos então menino e menina,
Ficamos a brincar tão cheios de candura
Que nem é crível que no brinquedo exista algum mal.

Como somos os dois menino e menina,
Cansamo-nos depressa e dormimos tranqüilos
Num ingênuo abandono de bonecos partidos.



Imagem: "Marcas da chuva", por Sasha Alves.
(www.flickr.com)

3 comentários:

M. disse...

Lindo mesmo, Aeronauta.

Maria Muadiê disse...

Mapa

Viajante do caos,
(Aeronauta?)
Onde encontrar o nó dos pesadelos?
O nódulo, a espiral
Onde nascem os ciclones?

O tempo é a substância única
Em que navego.
Bússola solta ao acaso,
Aeronave,

Geografia inventada, precipício
De símbolos, de sargaços.

Há um Adamastor plantado
Em cada traço
Deste sujo papel,
Deste papiro ingrato

Que se enrola e me esconde
A outra face.

Myriam Fraga

Gerana Damulakis disse...

Belo poema de Myriam, tanto quanto a poeta inteiramente ( a artista e a pessoa).