sábado, 23 de maio de 2009

Existirmos


Quem não morre de novo, de velho não passa. Era a frase que pai mais dizia. Talvez por isso para mim é estarrecedor o fato de saber que alguém cometeu suicídio na casa dos oitenta, noventa anos. O escritor húngaro Sándor Márai, por exemplo, se matou beirando a casa dos noventa. E Pedro Nava, aos oitenta. Os dois com tiro de revólver. Não sei em que ambiente estava Márai na hora do horror; Nava sei que foi no meio da rua, depois de receber um misterioso telefonema. Meu Deus, o que leva alguém, já presumivelmente tão perto de partir, a adiantar com tamanha fúria sua ida? Pra que tanta pressa? Por que não esperar mais dez, onze anos?
Essas perguntas são bestias, sei. Bestiais, como tudo o que se especula a respeito da existência; sobre o frágil juízo do ser humano. Mãe na sua simplória e vívida sabedoria sempre insistiu nesse ponto: juízo de gente é coisa fraca. Porém, isso não quer dizer que Márai e Nava estavam com os respectivos juízos fracos; muito pelo contrário, pode ser que estavam terrivelmente lúcidos, sabendo exatamente o que faziam. Mas se isso for verdade, por que Nava correu para morrer no meio da rua? E rua é lugar pra morrer? Por que não? Diria ele, dentro de seu baú de ossos. E eu calo minha boca; não sei mesmo o que estou dizendo.
Ah, a existência, coisa séria que levamos na graça, porque senão não vai sobrar um revólver nas lojas... Mas há outra modalidade de fazer o estrago, menos legitimada, é verdade, que é se entupir de todas as porcarias escolhidas, desnaturadamente, pelo paladar: eis, pois, uma maneira sutil, disfarçada de ir construindo, lentamente, a grande cena; porém, claro, sem qualquer glamour.


Imagem: "A ligeira existência", por pedribeirophoto.
(www.flickr.com)

9 comentários:

Nilson disse...

Que coincidência, hein, Aeronauta? Mas é isso: pra viver, há que ter faro!

Críticas Criticáveis disse...

De alguma forma temos que partir, seja de morte morrida ou matada, a cada dia nos matamos um pouco não tem jeito. Suicídio aos 80 é a agonia de se esperar tanto pela resposta do maior mistério.
Nauta to no brasilis, to d vorta! Bjs!

Lidi disse...

Um dia, um amigo me falou que se a gente parasse para pensar na vida, por mais de três minutos, não seria bom que houvesse uma corda e uma árvore por perto. Adorei teu post, Aeronauta, me fez refletir. Um beijo.

M. disse...

Voltei. E como me sinto bem ao entrar em sua casa. Beijos

Gerana Damulakis disse...

Kawabata foi outro. São muitos os exemplos. Talvez se chegue a um ponto que um dia a mais já seria insuportável.

Bernardo Guimarães disse...

quantos anos e que sofrimentos carregava ernest hemingway quando apertou o gatilho da espingarda?

Andréia M. G. disse...

Acredito mais na hipótese de que estavam terrivelmente lúcidos. Talvez achassem que não tinham mais nada a perder, ou ganhar...

Bárbara disse...

A vida acaba se tornando um fardo para quem é terrivelmente lúcido.Portanto, a única solução é a morte.

Sempre visito o seu blog e adoro o que você escreve.

P.S: Sou amiga de Lidi

Viviane Costa disse...

Pois eu adoro essas perguntas ditas bestiais.

"E rua é lugar de morrer?": seu modo de escrever me faz sentir numa mesa de bar, batendo papo com amigos. Uma déli, rs. Bjs.