quinta-feira, 21 de maio de 2009

A sombrinha e o carma


Enfrentar chuva no meio da rua faz parte de carma, tenho certeza. Hoje saí de sandálias baixas, abertas na frente, parecendo que estava em veraneio. Dentro da bolsa a sombrinha azulada, meio torta. Uma saia e uma blusinha desafiadoras. Nunca imaginaria que teria dilúvio. E teve: por pouco a praça da piedade não me leva. A velha sombrinha de guerra virou bandeira; o vento deu-lhe uma surra tão forte que entortou o outro lado. Depois, não satisfeito, o vento deu um zum de redemoinho nela, esculhambando a coitada toda, e só não a deixei no lixo porque sou apegada a coisa velha e inútil.
Cheguei em casa desfigurada tal qual a sombrinha. Abri a dita cuja na porta e ela desabou, deitou-se no chão como quem gemesse: acabei, não vês? Entrei com os pés lavados por água de sapo (mãe achava que água de chuva era sempre água de sapo), olhei pela vidraça e, como uma Poliana retardada, preferi acreditar que agora era feliz, longe daquele horror. E tome-lhe vento uivando. Numa fúria estarrecedora. Ligo a luz da sala, aperto o chuíte (alguém se lembra dessa palavra?) e quem disse que a lâmpada acendeu? Queimou-se. E quem vai trocar? Ninguém. Não alcanço e não sei. Então, que tal ouvir aquela cedê de poemas de Manuel Bandeira no escuro? Acolho-me na poesia, na poesia, conforto para todos os carmas, todas as sombrinhas mortas.


Imagem: "Sombrinha", por gitanostudio.
(www.flickr.com)

16 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

dá-lhe Aero! Belo texto.
(joga fora a sombrinha, moça)

G Damulakis disse...

Como vc escreve: estou ficando viciada.
Escolha maravilhosa: Manuel Bandeira, estrela da vida inteira.

imonizpacheco disse...

De novo a chuva, impiedosa até com a sombrinha... Porém dessa vez ela rendeu um lindo texto.(Adorei "água de sapo").

Luli Facciolla disse...

aaaaaaaaaaaah...
Fiquei com pena da sombrinha...

Beijo

karina rabinovitz disse...

que texto absurdamente lindo!
tanta coisa dita num breve relato de chuva.
assim é a poesia, né?
obrigada.

Bernardo Guimarães disse...

quando quer, faz um texto hilário! viu porque não carrego guardachuva?

Andréia M. G. disse...

Vi muitos cacos de sombrinhas hoje na rua. A minha resistiu. rs Ótima ideia a sua de buscar refúgio na poesia. Estou gostando muito do seu blog!

Lidi disse...

Depois que a sombrinha gemeu: "acabei, não vês?" você desistiu dela, não foi? (rs) Adorei o texto! A poesia é, realmente, conforto para todos os momentos! Um beijo.

Marcus Gusmão disse...

Li sei texto antes de sair. Gosto de chuva, nunca tive guarda-chuva e hoje saí com uma sombrinha emprestada (só para progeger a máquina) pelo Pelô na chuva em busca de uma sombrinha e uma aeronauta açoitada pela ventania mas não encontrei. Vou ver ainda o resultado das fotos e se prestar vou postar em sua homenagem.
PS 1 - Água de sapo, na chuva de Salvador seria água benta. A água aqui é puro inimigo do gato.
PS 2 - Chuite é o meu pai novamente.
PS 3 - fiquei feliz por você ter gostado da minha viagem no post de Bernado. Deu trabalho fazer, fiquei encafifado procurando um jeito que traduzisse o quanto vi naquela história.

Edu O. disse...

não sei se era pra rir... me pareceu chaplin

Renata Belmonte disse...

Sempre arrasando!
Bjs

Nilson disse...

Arrasou, mesmo. Meus sentimentos pela sombrinha.

eu mesmo disse...

A moça pequena, franzina encontrava-se no meio daquela tempestade.
Lutava, em vão, para livrar-se da força do vento que insistentemente tentava arrastá-la para longe.
A água, que escorria por seus cabelos, encharcava mais ainda suas roupas já coladas no corpo castigado pelo tempo, pela idade...
Cansada de lutar contra a intempérie da natureza, ela sabe que essa tempestade não vai cessar tão cedo.. vai perdurar por mais tempo... muito mais tempo.
Em casa, após livrar-se dos efeitos da chuva, ela sente que a tempestade não findou. Pelo contrário, ela, uma moça simples e de bom coração, convive com uma procela todos os dias e que não se deixa mais amainar.
Em meio à angústias, sofrimentos e frustrações, a singela jovem sabe e chora, mas um choro silencioso, por dentro, por que não adianta gritar, seque sussurrar.
Ela está só, e não é uma solidão de morar sozinha. Ela convive com algo pior.. a solidão de si mesma.

(João Neto)

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