domingo, 17 de maio de 2009

Náufrago


Ele era alto, torto, gordo e meu namorado. Minha cabeça dava na sua cintura, e para me abraçar andando, ele precisava ficar mais torto ainda. Quando passávamos pela rua, todo mundo ria. Eu não me importava, estava feliz. Ele comia muito, sem nenhuma vergonha. Minha irmã o odiava, pois ele ia lá pra casa e comia tudo que lhe ofereciam. Comia, repetia, comia, repetia. Sempre rindo, com os olhos tortos por trás dos óculos. Médico da cidade, morava, coincidentemente, na casa de número 33, rua da Glória. Era uma casa estiradona, com todos os cômodos pequenos e imensos corredores frios. Não queria gastar com móveis, então levou para lá apenas uma cama de hospital. Isso mais aumentava o ódio de minha irmã por essa criatura avarenta, torta e comilona.
Todos os domingos íamos passear no rio, perto da cidade. Eu sempre de sandálias havaianas e ele impressionado com elas. Dizia nunca ter visto por ali uma só menina, além de mim, usando sandálias havaianas. Ficou entusiasmado também com meu perfume seivas de alfazema e meus cabelos crespos. Me pedia que eu lesse poemas pra ele, e num desses passeios me deu de presente uma pedra dali do rio, marcando a exata hora em que estávamos vivendo. Pediu meu lápis emprestado para desenhar as quinze para as três.
Numa manhã de segunda-feira ele chegou lá em casa me chamando. Disse que havia sido demitido da prefeitura e já estava de viagem. Me chamou para ajudá-lo na mudança. Nesse momento cheio de emoção, me deu de presente um baldinho azul de lixo que guardava no cantinho de sua sala sem sofá. Sempre tive muito zelo por esse balde. Muito zelo. E desde aquele dia cuido dele como se cuida de um náufrago. Vejo-o agora, aqui embaixo da mesa do computador.
Passaram-se anos, vários anos. Mudei de cidade, e meu namorado torto se perdeu no mundo, trabalhando como psicanalista em Ribeirão Preto. Coincidência do destino, um dia descobriu meu telefone e me ligou, talvez por pura curiosidade em saber como estava aquela menina que usava sandálias havaianas e perfume seivas de alfazema. Ao reconhecer sua voz no telefone eu não acreditei. E a primeira coisa que me veio à cabeça e à boca, para lhe falar, foi o balde. Lembra-se? Aquele balde pequeno, azul, que você me deu quando foi embora! Está aqui comigo! Novinho ainda! E ele: Mas que balde? Não lembro! Eu: Poxa, o balde, azul! Está igualzinho, novo do mesmo jeito! Ele imediatamente mudou de assunto, querendo saber em que lugar eu trabalhava.


Imagem: "Flores perdidas", por Jessika Mendonça.
(www.flickr.com

12 comentários:

Marta F. disse...

Náufrago, associado ao mar. Vi uma mulher de maiô branco sentada, as pernas cruzadas, numa cadeira de praia na areia sozinha à beiramar(?)segurava um chapéu também branco por causa de um vento forte.

Pô, que foto, era uma "folha perdida" das outras mais embaixo. E não era areia do mar, era um degrau de calçada. Nem vi as flores ainda. Agora só as folhas, boas de pisar pra ouvir um crek.

Marcus Gusmão disse...

Caramba Aeronauta, este seu balde é o resumo da ópera. Cada um segue a vida com suas lembranças e seus esquecimentos.

Janaina Amado disse...

Ai meu deusinho, que delícia voltar aqui e encontrar este texto sugestivo, interessante e um pouco triste, lindamente escrito da forma que você sabe fazer, aero. Tô de volta!

Menina da Ilha disse...

Esqueceu que eu o chamava de Italianona? É, nem sabia dessa herança que ele lhe deixou. Também, vindo do representantes dos avarentos na terra, não era de se esperar outra coisa. Mas, como sempre você consegue tirar leite das pedras. Não é que até eu fiquei sensibilizada com essa história de amor que tanto me irritou?

Gerana Damulakis disse...

Deliciosa a história. Desta feita me acabei de rir, o toque de humor em torno do balde: "Sempre tive muito zelo por esse balde. Muito zelo". Você sabe fazer o leitor chorar e sabe fazer o leitor rir. Bravo!

Renata Belmonte disse...

Muito bem, amiga! Ótimo texto!
Também estou com saudades! Vou ligar para vc!
Bjs

maria guimarães sampaio disse...

lindo, lindo, lindo!

Bernardo Guimarães disse...

lindo conto de amor.

Viviane Costa disse...

Fiquei chateada por ele não ter lembrado do balde, mas estou toda boba com a historinha. Conte mais, vá! Amo histórias de amor!
*suspiros*

Lidi disse...

Aeronauta, obrigada pela tua visita ao meu blog. Adorei. Que bom que meu post te fez lembrar teus vinte anos. Tomara que esta lembrança, um dia, se transforme em mais um belo texto postado aqui em teu blog. Você sabe, como ninguém, transformar memórias em genuína literatura. Um grande beijo.

Tom Correia disse...

Maravilha de texto, Aeronauta, maravilha...

Nilson disse...

Lindo, de fato. Inconfundível estilo Aeronauta. E esse baldinho azul tem um que de cinematográfico!