domingo, 20 de janeiro de 2008

Ele está aqui

É como se meu pai estivesse aqui.
Às vezes, no meio da noite, ouço o ruflar do jornal passando pelos seus dedos - ele que só ia dormir depois de ler todos os cadernos.
Às vezes, às onze horas da noite, sinto ele chegar da rua, entrar no quarto para ver se eu e minha irmã já dormimos, e desligar, mais uma vez, o ventilador.
Nas noites de muita chuva, noto ele andando pela casa com medo do rio entrar na cozinha. E de manhã escuto sua voz vindo da janela da sala falando sobre a enchente com as pessoas que passam na rua.
É mesmo como se meu pai estivesse aqui.
Perguntando, todo dia, sempre nervoso, onde está sua agenda. Sua agenda, aquela que ele colocava na estante e sumia. "E a caneta, Té, cadê?", perguntava desesperado.
E quando chegavam as contas quilométricas de telefone? Sentava-se nos degraus da sala e fazia sempre a mesma pergunta: "Quem ligou para Embu?" Era o enigma da família. "Quem ligou para Embu?" Todos os lugares apareciam com seus respectivos ligadores, mas Embu era diferente: ninguém sabia quem ligou.
E nas segundas-feiras, a briga na sala da frente: mãe querendo mais dinheiro para a feira, ele negando e ela reiterando no final da briga: "Ô home ruim!"... Ele por fim dizendo: "Você não é mais aquela que eu conheci no Valha-me Deus!"

Sinto, ele está aqui, é verdade.
Nos livros de Jorge Amado na estante da sala. Na maneira de ler movimentando os lábios. Nas melancolias. Nas manhãs da semana, quando lerdo, quase sempre perdia o ônibus para a roça, com mãe gritando da janela: "lá vem o ônibus, Bino, corre!", e ele lá na cozinha comendo. "Lá vem o ônibus, Bino, já está na praça, corre!" E a correria dele pelo corredor para pegar o ônibus. Todos os dias sempre a mesma coisa.

Ah, ele está aqui.
As sandálias estão no mesmo lugar à sua espera. Sua roupa pendurada no cabide do quarto e ele tomando banho. Mãe aproveita e vai lá na sua calça retirar, clandestinamente, um dinheirinho extra. Daqui a pouco ele vai jantar e assistir ao jornal nacional. Depois lerá todos os cadernos do jornal, madrugada adentro.

9 comentários:

Renata Belmonte disse...

Que lindo, Nauta! Amo seus textos.
Beijos,
Renata

Anônimo disse...

Minha cara, tá todo mundo no festival de verão ou no ensaio do harém. Da mesma forma que vc sinto que meu pai e minha mãe estão por aqui me recriminando: "vai dormir, menino, que tá tarde! tu vai acabar ficando doido de tanto ler! apague o candeeiro, menino!". E eu não entendo porque a vida abandona a gente, assim, feito um ônibus que segue nos deixando no ponto, a sós com o nosso vazio deles. P..., acho que bebi demais. Ando bebendo demais. Meu médico não pode saber disso. Ah, aproveito para informar que "todo mundo" ama você, Aeronauta, "todo mundo"!!!! Abr. (carlos)

Sebo de Livros disse...

Ai, que lindo!. Mas deve ser errado você fazer com que meus olhos fiquem marejados a essa hora da manhã, 11h32! E tanta gente por aí publicando livros absolutamente dispensáveis. E esse aqui, essencial, sendo escrito e lido aos poucos. Ai, que lindo!

Maria Muadié disse...

Sou louca por meu pai. Você me emocionou. Quando vou para casa dele ele entra em meu quarto durante a noite para fechar a janela. Tem medo que a corrente de ar me faça mal, nem lembra que já tenho 41 anos e durmo com meu marido.

Um beijo

Mônica Menezes disse...

Querida mulher que voa, também sinto falta de meu pai. Ele me levava para passear na garupa do seu alazão, ele corria forte porque sabia que eu gostava (e gosto ainda) do vento nos meus cabelos. Lindo de morrer o seu texto. Beijos, Mônica

Críticas Criticáveis disse...

Saudade papai

Personagem Principal disse...

Ai de nós que temos pais memoráveis, Nauta! E aproveito para fazer eco ao que disse Carlos, todo mundo ama vc! Bjs.

SANDRO ORNELLAS disse...

belo texto, muito bonito mesmo. vc escreve com sensibilidade, nauta aérea.

Carlos Rafael disse...

Ainda hoje sinto saudade das surras que levei de meu pai
(boas surras e merecidas)
E agora quando PR (meu lindo menininho de menos de dois anos) "bota uns bonequinhos", dá vontade de de dar umas palmadinhas na bundinha dele. E dou, ainda que escondido de todos...