domingo, 27 de janeiro de 2008

O grande susto de estar viva

Sofro por coisas aparentemente anódinas: um dia que chega, um dia que vai, um amigo que não liga, a sensação do tempo passando, a angústia de estar viva, o livro que eu comprei e ainda não consegui ler, a pia cheia de pratos sujos olhando para mim... Ah, é sem fim a lista. Há três dias atrás resolvi encarar todas as coisas pendentes a fim de sofrer menos, mas não adianta. Lavei todas as roupas, passei, arrumei. Mas e os livros comprados que estão me chamando da estante? Oh, Bandeira, logo logo chego aí. Preciso, Cecília, antes de ler "O estudante empírico", arrumar as pastas de trabalho. Oh, Jorge de Lima, há quanto tempo marcamos nosso encontro? Ainda não vai ser hoje. Que droga! Eu queria estar lá com eles, mas a própria vida me empurra pra outro lugar...
Os felizes de plantão, os bem-aventurados saúdam o dia que nasce. Eu não. Detesto acordar. Só à tardinha é que vou me adaptando ao dia. E à noite me sinto em casa, me sinto em mim, coisa que também não é fácil. Mais fácil é ler Clarice Lispector. Hoje pouco leio Clarice. Acho que não tenho mais a predisposição que antes tinha. Já aprendi que não sou imortal, já sei, como Macabéa, que ser feia dói, já vivi todos "Os desastres de Sofia", já tive, também, quando pequena, uma amiga com muitos livros e que não gostava de ler e que não me emprestava... Ah, já vivi muitas "felicidades clandestinas", o Livro aberto em "êxtase puríssimo", Livro que pai trazia na pasta quando vinha de Salvador...
Não sei, mas desde os sete anos é a mesma angústia: alguém está doente, um carro virou, fulano está no hospital, beltrano foi preso... Tudo isso aos sete anos me tirava o sono. Mesmo bebendo chá de erva-cidreira o sono não vinha, o sono não queria saber de chá, o sono queria saber da vida, do sofrimento do mundo... Desde os sete anos trago olheiras profundas, e um susto, o grande susto de estar viva.
Lembro quando, aos dez anos, me arrumando para ir à escola, toquei no meu peito e vi uma pedra. Toquei no outro peito e vi uma outra pedra. Meu Deus, que pedras são essas? Me assustei. Uma colega do grupo escolar me disse que era peito nascendo, peito de moça. E mãe pediu à professora que nos instruísse sobre a puberdade. Nunca me esqueci dessa palavra estranha e dura: puberdade. Odiei essa palavra logo de cara. Não, não queria a puberdade, queria continuar como eu era, sem puberdade. Mas ela veio, e me trouxe espinhas pelo rosto, e eu virei a própria Macabéa, com "panos" na cara, procurando um certo Olímpico. Que nunca veio. Ainda bem. Pelo menos me livrei de ser derrubada na lama.
Ah, foi sim aos sete anos. Antes mesmo de ler Clarice. Descobri aos sete anos a minha condição de vivente. Via gente morrendo na cidade, via gente adoecendo, via gente chorando, sofrendo, e rezava por todos eles, e não conseguia dormir. Daí nasceram a minha compaixão e a minha dor. "Essa menina é diferente", diziam todos. Minhas insônias faziam pai brincar, ao passar no meu quarto antes de dormir: "todo mundo está dormindo... por que só tu, olho arregalado, é que não dorme?" Parece que escutei, agora, ele dizer isso novamente, rindo para mim...

8 comentários:

Renata Belmonte disse...

"Essa menina é diferente", repito.
Que bom ser especial, não?
Bjs

Personagem Principal disse...

Escuto até hj isso e ainda não aprendi a melhor forma de lidar com essa diferença. Preferia que ninguém me notasse...

Críticas Criticáveis disse...

Me tira o sono as coisas q nao consigo resolver, ou q estão pra se resolver, detesto isso, por mais q tent não consigo relaxar! É incrível sempre alguma coisa pra resolver..ó vida, quando poderei dormir em paz?

Silvia disse...

continuo com um monte de livros que não leio e blogs de amigos amontoados que dá desgosto em vc até hoje quia quia quia...

Silvia disse...

troquei os livros por outras artes mas a vida me deu uma casa e um monte de afazeres domésticos roupas pra lavar roupas pra passar menino pra dá banho outro pra mandar tomar banho e outro pra nem alcançar de tão distante que vive, mas voltando enfim às artes vou á galeria já na hora de sair e pingo um ponto de tinta com a grande intensão de fazer uma obra de arte que vai adiando pelo tempo até não me reconhecer mais... mas valeu a intensão como diz luis pensar já me dá um enorme prazer! e assim minha inveja boa lhe copia!

Silvia disse...

como não tenho blog escrevo no seu pra vc

Marcus Gusmão disse...

Li seu post a gargalhadas e reli para Soraya e Luísa, que ficaram curiosas. Elas identificaram A condessa de Séguir (Sofia a desastrada), que eu comprei outro dia para Luísa mas não conheço. Soraya diz que a condição feminina é essa. Se não é linda e tem um mínimo de inteligência é pra maldizer o dia que nasceu... ou não (emenda). "Não sei o que é pior, se a ignorância total ou a lucideze e o discernimento..." diz Soraya.
Tirando toda esta filosofia, seu texto é hilário...muito bom.

Lidi disse...

Pois é, aqui ainda estou eu lendo teus posts de anos atrás. Só me contentarei quando ler teu blog por completo, assim como fiz com o de Renata. Tenho que recuperar o tempo perdido. Amei este teu texto. Identifiquei-me com ele. Às vezes, também escuto as pessoas dizerem que sou estranha. E me sinto deslocada, quase sempre. Um beijo.