segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Mariquinha

Desde criança fui dada a melancolias. E mãe me mandava para a rezadeira. Não só eu, mas minha irmã também. As duas sempre com o corpo mole, sem vontades de levantar da cama. Mãe dizia que era quebranto. E comprava figas, laços de fita vermelhos, tudo para driblar o olhado do povo. Mesmo assim, lembro que até os quinze, dezesseis anos, a moleza ainda nos pegava e mãe nos enviava para a rezadeira da cidade: Mariquinha. Ela morava na Rua dos Sete Pecados, atrás do sobrado verde, ao lado da praça principal. Mariquinha era uma senhora de uns setenta e muitos anos, negra, dona de um repertório de rezas e performances bem interessante. Chegávamos na sua casa e íamos entrando, porta adentro. A casa era comprida, escura, cheia de móveis velhos e santos estupefatos, nos olhando dos oratórios com olhos de espanto e eternidade. Entrávamos chamando seu nome: "Mariquinha, ô Mariquinha..." Ela estava sempre nos fundos da casa, próxima ao quintal. Bem magra, forte, lúcida, dizia: "Vão entrando, meninas..." E completava assim: "Ah, são as meninas de Terezinha, entrem, entrem..." E nem precisava a gente dizer mais nada. Ela nos levava para o meio do quintal e ia procurar um ramo de folhas verdes. Era uma de cada vez: primeiro minha irmã, depois eu. Pronunciando uma reza engraçada, ela nos rodava e nos rodava e nos rodava, dando uma surra em nossos rostos, costas, braços, pernas com o ramo de folhas verdes, ritualmente falando: "... Se o quebranto é no olhar, é no calçar, é no vestir..., saia olhado, quebranto, plasmado". E terminava: "...Onde Jesus põe a mão, Nossa Senhora põe a vertude", não se importando nem um pouco com as nossas risadas. Era essa (além, claro, de muitas outras) a grande virtude de Mariquinha.

3 comentários:

Mônica Menezes disse...

Aeronauta, que saudades de você! Já desejei feliz ano novo? Não, ainda não. Feliz e pleno de poesia. Meu beijo, Mônica

aeronauta disse...

Oh, Mônica, também estou com saudades! Feliz ano novo para você, repleto de poesia!
Beijos.

Críticas Criticáveis disse...

Sua vida é um conto mesmo nauta...