quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Covardia

Uma das cenas de covardia que insiste em habitar minha memória é terrível. Vejam: eu e minha irmã indo para a banca, à tarde. Um solzão de lascar. Numa dobradinha de rua, três cabeças despontam dentro de um buraco: Janda e suas capangas - Lourdinha e Mariquinha. Estavam lá de tocaia, esperando. Quando elas nos vêem, saem do buraco. Cercam a gente. Aliás, cercam minha irmã, pois eu tratei logo de sair de banda. Enquanto Lourdinha, a secretária, segurava os livros da coitada da minha irmã, Mariquinha começava o ataque, e Janda, a chefona, só olhava. Todas estão instaladas num meio-fio, onde lá embaixo uma lagoa verde, de sapo, fedia à espera. Mariquinha tratou logo de abrir passagem e se jogou pra cima de minha irmã - que só não caiu no buraco porque grudou nas suas canelas secas. Nessa hora, Janda, ferozmente, já com toda a raiva que necessitava, partiu para cima com olho de cachorro doido. E eu? Onde estou eu numa hora dessas?
Ah, eu estou já perto da ponte, bem longe, gritando pela coitada que apanhava: Vambora Mã, vambora Mã, Vambora Mã...
Se não fosse uma filha de Deus, adulta, que passava na hora, minha irmã tinha se acabado.

8 comentários:

Marcus Gusmão disse...

O que sua irmã fez a Mariquinha e a Janda para atrair tanto ódio?

aeronauta disse...

Marcus, não sei não. Mas não deve ter sido coisa que prestasse. Vou pedir a ela pra vir aqui responder: Mã, ô Mã...

Carlos Rafael Dias disse...

AeroEspertaNauta

É isso que você sempre será.

Eu não sou muito diferente.

Sempre fui o mais novo da roda.

E o mais "fraquinho".

Os outros que me protejam.

Sempre!

Judith disse...

Morro de pena dos medrosos. Sofrem em dobro. Essa Janda merecia topar comigo, merecia sim...

Bernardo Guimarães disse...

Não sei qual a covardia maior: se da gang ( três contra uma) ou a da irmã que passou sebo nas canelas e largou a pequena na boca dos leões.
Entre mortas e feridas, todas estão lépidas, hoje.
Ih, me veio à memória "O caçador de pipas".

Menina da Ilha disse...

Marcus: Meu problema era com Mariquinha. Mas como ela não tinha coragem para me enfrentar sozinha, resolveu covardemente contratar as tais capangas. E três contra uma, é demais, né? Tenho uma crônica hilária sobre essa história, mas é muito grande para colocar num blog. Nela você ia entender com mais clareza o que é ter uma irmã convarde e ainda defendê-la sempre.

Marcus Gusmão disse...

Ó paí ó aeronauta, e ainda lhe chama de covarde. E se o texto é grande, Menina da Ilha, publique então em capítulos. Queremos ver sua versão.

Anônimo disse...

ler todo o blog, muito bom