quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Primeiras nuvens

A professora-diretora me colocava para sentar na frente. Eu e um menino branquelo: os mais aplicados e menores da turma de cinqüenta alunos. Quinta série. Esse menino branquelo passava todas as aulas fazendo bolotas de meleca que tirava do nariz. Fazia uma, amassava, amassava, e quando estava bem amassadinha e fácil de desgrudar do dedo ele a colocava em cima da carteira. Depois nova bolota. O mesmo processo. Bolotas em série em cima da carteira. Aquilo pra mim era visto como algo normal; na verdade eu tinha até certo carinho pelo meu porco-colega-de carteira. Estávamos ilhados na frente, sozinhos do restante do mundo. Éramos alvo de inveja, maledicências e atos violentos dos outros colegas. Minha longa trança que o diga: sofria tremendos choques elétricos que os gêmeos da sala faziam questão de dar em plena aula. Os ditos cujos levavam um fio elétrico, colocavam na tomada e grudava-o na raiz da minha trança. Eu ficava tomando choque o tempo inteiro. E calada. Não sei por que tamanho heroísmo. Ou tamanho medo. Sei lá. Nessa época parece que eu não existia, vivia muita alheia ao mundo. Pra mim o mundo era uma névoa. Estava no ginásio e enfrentar essa nova realidade era estranho. Muitas matérias, muitos professores, muitos colegas, e matemática difícil. Então, o jeito era voar. E eu voava. Não tenho lembranças precisas desse tempo: tudo vem muito embaçado na minha memória, como se fosse um sonho antigo. Um sonho enevoado em que todos riam de mim. Todos. Inclusive a professora de português, diretora do colégio. Um dia, em pleno recreio, ela me chamou e me mandou ir na casa de Nita (vizinha do colégio) pegar uma pena de galinha para ela coçar o ouvido. Fui. Corri atrás da primeira galinha que vi. A galinha correu de mim. E fiquei nessa labuta, até que Deus me ajudou que a galinha, ao tentar alcançar um muro alto, soltou uma pena. A pena correu no ar, e do ar para o chão, e do chão para mim, que a levei nas mãos para a professora. Que prontamente a colocou direto no ouvido, matando aquela sua coceira horrorosa. Eu não questionava nada, se aquilo era normal ou não. Apenas obedecia. Aliás, obedecer era meu lema. Até quando os meninos, na descida do colégio, iam tocando sino na minha trança: belém-bem, belém-bem, belém-bem, cada vez mais forte. Eu deixava. Ficava tonta, mas deixava. O pescoço doía, mas deixava. Oh, como diria Clarice, eu era uma delicada, uma menina de onze anos que passeava pelo mundo como uma borboleta atônita.

10 comentários:

Mônica Menezes disse...

Ler você é, na maioria das vezes, me encontrar. Lindo texto.

Bernardo Guimarães disse...

Vc tem esta extraordinária capacidade, de descrever a nossa vida, de ver as coisas que não vemos mas sabemos que estão lá.

maria guimarães sampaio disse...

É engraçado, Aero... querer dizer e não saber. Então, assino a mensagem do primaldo Bernardo.
Maria

Maria Muadiê disse...

Sinto muito, Aero, que bom que agora "os tempos são outros".
Um beijo,
Martha

Renata Belmonte disse...

Nauta,
Que saudade de você! Escreve para mim!
Bjs

monica de arruda disse...

Sabe, Aero, fiquei aqui pensando... Essas coisas fizeram você, ou será que foi você quem as fez?
Borboleta atônita é perfeito... linda, voadora, vulnerável... Quem me dera!

Anônimo disse...

Ao ler seu texto, Aeronauta, não há como não observar o quanto as crianças sabem ser perversas, puramente perversas, mas o tempo passa, elas crescem e essa perversão não as deixa, mas ganha outros requintes, como esse que desfrutei agora mesmo ao ler seu texto. O riso que você me suscitou é o espelho da vontade que temos de romper as normas e galgar os caminhos do grotesco, do politicamente incorreto e do insano. Ri sim, ri de pena de você, ri de suas dores infantis, ri de sua subserviência diante do mundo, mas ri mais ainda pois lembrei-me de mim, de meu medo de viver quando criança e da tentativa de me esconder de todos em todo o tempo. É, Aeronauta, você tem esse poder, ao contar de si mesma, você resgata o outro, você resgata a mim. Beijo. Parabéns!!! (João Neto)

Nilson disse...

Borboleta atônita é demais. Também tive meus aperreios na escola, qualquer dia conto. Mas acho que tudo isso faz de você o que você é, e a gente transforma isso em material pra escrever coisas como você escreve. Gasolina de aviação!

Críticas Criticáveis disse...

hahaahaha Adorei! Criancas podem ser crueis e porcas! Bjus Nauta vc eh demais!

Janaina Amado disse...

Este seu texto me comoveu muito. Eu também me sentia assim, no ginásio, perdida no limbo. Também tenho desse tempo o mesmo tipo de memória opaca, enevoada. Tocante.
Agora, professora que manda aluno buscar pena de galinha pra se coçar, dessas nunca tive, graçasadeus - que coisa!!!