terça-feira, 30 de setembro de 2008

É quase outubro


Vou lá em casa e já volto. A porta está no trinco: é só puxar o cordãozinho e entrar. O chão, vermelho e encerado, brilha. Dá até pena pisar com essa sandália suja de rua. Vou entrando, e nem preciso chamar por mãe, sei que ela está no fundo da casa, sinto o cheiro de café pronto. São nove e vinte da manhã, e ainda deve ter café na mesa. Pai está no sindicato e mãe preparando o almoço, agoniada como sempre. Às dez, dez e meia, e o almoço já prontinho da silva! Mas ainda não quero saber de almoço, quero é o cuscuz que está na mesa me esperando. Mãe, ô mãe, resolvo chamar por ela, corredor adentro. Ela, na janelinha que dá para o rio, conversa com alguém que passa do outro lado. Conversa telefônica: uma grita e a outra responde. Essa janelinha é um charme: pequetitita, porém dá para ver o rio e a imensidão toda do lado de lá. Numa segunda-feira, na agonia horrorosa desse dia, mãe jogou um dinheirão pela tal janelinha. Disse que estava agoniada e fez sem querer. A sorte é que o dinheiro não caiu dentro do rio. "Acode, meninas, vão pegar o dinheiro lá embaixo!" Escuto esse eco até hoje. Ah, mãe... Sempre com o cabelinho curto, motivo pra pai ficar com raiva e dizer que mulher tem que ter cabelo comprido, que ela precisa deixar o cabelo crescer, que daquele jeito parece mais é um homem. E ela: "Sai disso, Bino! Tu já me conheceu assim! Papai é quem cortava meu cabelo!" Essa conversa se repetia, e eu dou risada agora, ao lembrar. Já estou subindo as escadas que dão para a salinha. Nessas escadas, pelos buracos da porta que dá acesso à chamada "salinha" e à cozinha, eu, aos sete anos, espiava pai tomar banho na caixa d'água. Depois mãe tampou todos os buracos com papel higiênico. Agora as portas estão abertas e eu vou entrando. Na salinha a abertura para os sanitários, a caixa d'água e o quintal. Ah, o velho pé de carambola continua balançando suas folhas mornas... Mãe, debruçada sobre sua horta, nem me vê entrar, entretida. O rio está cheio, ouço o murmúrio dele, e sinto o cheiro de terra e pedra molhadas. Mãe me vê e sorri. É quase outubro. Que vontade de ficar.

Esse texto vai em homenagem a Nilson, lá do Blag (http://nilsonpedro.wordpress.com), e sua "Casa Tomada": entrei e senti saudades de minha casa antiga. Na foto acima, mãe sentada na porta.

8 comentários:

Anônimo disse...

Que lindo esse texto.
Lembrei da casa da minha vó, que vontade de voltar no tempo.

Bernardo Guimarães disse...

Me deu vontade de ver uma foto do lugar, principalmente depois da descrição quase fotográfica do lugar.

maria guimarães sampaio disse...

lindo, Aero. Ter um rio no fundo casa (já falamos aqui) é TUDO. E ter MÃE lá esperando, melhor ainda.

Maria Muadiê disse...

que lindeza...

Nilson disse...

Que belo, belo texto como sempre. E como fico feliz de ter inspirado essa descrição tão pungente. Valeu, Aero!

Edu O. disse...

leio teus textos e sempre me pego falando-os em voz alta, como num monólogo. são tão meus!!!! Nesse meu peito apertou desde a primeira palavra. Eu já sabia que vinha coisa de meu avô.

Menina da Ilha disse...

Tempo que eu não aproveitei como deveria. Que bom que você sempre me lembra que mãe continua lá guardando a nossa história.

Janaina Amado disse...

Fica, ficaí, aero (viu a intimidade?), e conta mais pra gente.