domingo, 12 de outubro de 2008

Meu avô


"Papai", "Seu Jesuíno", "Vovô", "Meu padrinho", "O véi": era assim como lhe chamavam, respectivamente, mãe, pai, minha irmã, eu e minha avó. É este homem aí, só elegância, e que está ao lado de mãe, posando para retrato e retratista, no dia 06 de agosto de 1960, na Lapinha. Mãe e ele eram almas gêmeas. Sempre juntos, sempre confidentes, sempre sorrindo. Nas segundas-feiras ele aparecia lá em casa com algo que ela amava, dando-lhe de presente: requeijão. Que festa! Os dois eternamente apaixonados por requeijão!
O que marcavam mesmo meu avô era o riso e o amor à filha: Té. Trazer requeijão pra ela, toda segunda-feira, era a prova de amor que ele lhe dava. Depois que desembrulhava o papel de venda de roça, ela preparava a mesa para o café, que ambos tomavam com leite, conversando e rindo.
É isso o que mais lembro de meu avô: seu riso constante. Ele ria o tempo todo, sem interrupções. E nos envolvia com balas, conversas..., contando vantagens, tal qual seu irmão, tio Abel. Usava sempre paletó. Surrado, mas paletó. Chamava pai de "compadre", e conversavam sobre política. Eram bastante amigos.
Meu avô tinha uma venda na roça. E de lá é que trazia requeijão pra mãe e balas pra mim e pra minha irmã. As balas da roça eram diferentes das balas da cidade: tinham um papel ordinário e eram muito doces. Mas adorávamos. Ele as trazia dentro do bolso do paletó. E morrendo de rir nos entregava juntamente com a benção que recebia. Suas mãos eram brancas, grossas e cheias de calos. Mãos humanas demais.
Essa coisa de dar requeijão pra mãe e doces pra gente continuou até ficarmos adultas. Quando minha irmã casou, com o juiz da cidade, ele foi ao fórum conhecer o noivo. Depois de um largo abraço, tirou de dentro do paletó um lanche mirabel do fofão e ofereceu ao novo "neto" com o riso mais longo e puro do mundo.

13 comentários:

M. disse...

Que lindas lembraças! E que saudades das nossas conversas animadas (aquelas). Beijos.M.

Menina da Ilha disse...

Que saudade que senti dele lendo seu texto. Não se vê mais pessoas tão puras como ele. O lanche mirabel foi incrivel. Como sabe, nunca esqueci aquele momento.

Marcus Gusmão disse...

Figuraça este seu avô. Vou repetir aqui: você traz imagens nítidas demais de nossa infância. Eu vejo o requeijão embrulhado no papel úmido, a bala ordinária, a mesa posta, os risos. Vejo a venda, os pesos enferrujados da balança, as garrafas de infusão de cachaça nas prateleiras de madeira,o rolo de fumo de corda. E sinto o melhor de tudo, aquele cheiro característico de todas as vendas do sertão.

Bernardo Guimarães disse...

tenho me esforçado para ser um avô como o seu.
PS.: benvinda de volta, fujona!

M. disse...

Xiiiii, eu quis dizer lindas lembranças. M.

maria guimarães sampaio disse...

DES - LUM - BRAN - TE !!!! texto, avô, lembranças...

Carlos Barbosa disse...

Que "madeleine", que nada; fichinha, nonada diante de tanto cheiro diamantino. (o tal livro se agiganta), abr. (carlos)

Maria Muadiê disse...

Seu Jesuíno era muito generoso.

Nilson disse...

Lembrei do café com requeijão, bolhas de gordura na superfície. E sempre me intrigou o fato de o requeijão ficar meio borrachudo depois de embebido no café. Você sabe evocar mesmo esse nosso mundo. Na sua terra tem avoador? Sabe que em Brumado se chama assim, mas em Caetité o nome é xiringa, parente do ximango?

aeronauta disse...

M.: Obrigada pela presença.
Menina da ilha: Sei que o lanche mirabel lhe marcou!
Marcus: toda essa sua descrição é a descrição da venda de meu avô que, de maneira intrigante, minha avó chamava de "banco".
Bernardo: você sabe rir: é o primeiro passo para ser um grande avô.
Maria: meu avô era mesmo des-lum-bran-te!
Carlos: São muitas 'madeleines' diamantinas.
Marta: meu avô era, de fato, uma pessoa de extrema generosidade: gostava de distribuir doces, requeijão e sorrisos: há algo mais generoso?
Nilson: Na minha terra tem sim avoador. Nossos rincões trazem sempre o mesmo cheiro, o mesmo paladar...

Judith disse...

Menina: Se você quiser um exemplar de Morte Abjeta, pode combinar comigo que eu levo. Juro que nem pergunto nada a ninguém, não olho para os lados, não espio pelo buraco da fechadura e nem conto o que não perguntei e não vi para Bernardo, Maria e os outros freuqentadores do seu encantador blog.
Sou discretíssima!
E não acredite em tudo o que Bernardo diz. Sou mal resolvida não, e ele namorou mesmo uma cabra. Você não acha que ele é capaz disso???

(Bernardo autografa depois..)

aeronauta disse...

Oi, Judith, infelizmente não posso ir ao encontro. Mas quero o livro, sim. Já disse isso, e repeti, no blogue de Bernardo. E obrigada pela sua atenção.(Você colocou um autógrafo no livro?)
Quer dizer que essa tal Tuca era mesmo uma cabra? (rs)

Luli Facciolla disse...

Eita como queria ter conhecido os meus avôs... E como eu queria que eles fossem assim... que me trouxessem balas!!!

Beijos Nauta!