quinta-feira, 12 de março de 2009

Destruição


Em nossa casa existia uma palavra proibida: "Desgraça!" Palavrão que destruía a nossa alma, deliberadamente proibido por mãe. Quem falasse apanhava. Pai - algumas vezes - no auge do desespero, quando perdia sua agenda, a dizia. O sentimento de todas nós, ao ouvi-la, era de uma desordem no mundo, um mal-estar; e mãe logo tratava de ordenar a ele que parasse de dizer aquilo. Tal palavra - evito repeti-la aqui - tinha aos meus ouvidos um som de rasga-mortalha, rasga-roupa, rasga-gente. Até hoje não sei ouvi-la direito, mesmo quando não passa de uma simples menção miserável ao destino humano.
Portanto, posso dizer, com felicidade, que não fui criada com palavras que destroem. Que ofendem. Que dilaceram. Que nos fazem chorar desesperadamente. Se chorei na minha infância foi por coisas de outra categoria: uma perseguiçãozinha de mãe, uma pirracinha e surrinha de minha irmã, uma indiferençazinha de minha melhor amiga Sílvia... Nada que trovejasse brabo na minha alma, que me fizesse ter soluços num choro cortado, que me deixasse prostrada diante da d..... humana. (Não, não pronunciarei novamente essa palavra aqui.)
Na terça-feira à noite essa palavra foi ouvida por mim com suas sinuosidades de desvios e gritos. A palavra não foi proferida literalmente, mas através de seus substitutos, igualmente miseráveis. E veio acompanhada de onomatopéias, de movimentos de cabelo e de corpo, de toda uma cenografia da destruição e da desordem afetiva. (Oh, mãe estava tão longe, não poderia tapar os meus ouvidos.)
Quem a disse pra mim foi uma disfarçada amiga.


Imagem: "Medusa".
(www.flickr.com)

10 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Lá em casa também não se dizia. Essa e outras.

Bernardo Guimarães disse...

aero:
em vez de comentar,senti desejo de postar algo a partir de sua inquietação. se der, visite.

Ricardo Dib disse...

Vim ver o seu texto depois da menção de Bernardo. Lá em casa também não podia esse nome, mas quando fico nos cascos eu digo com toda força também. Pra mim tem um efeito de exorcisar.

Abraço.

KimdaMagna disse...

todas aquelas teorias ( em boca de sábios)mecanicistas ,pessimistas, racionais,foram matando em nós as crianças...
a criança chora e ri mas não não vê desgraça.
Ela ( a dita cuja) é um produto genuinamente ADULTO....


xaxuaxo

Carlos Barbosa disse...

Era o ranço católico, Aérea Persona. E pagamos por ele até hoje, quando nos pegamos em culpa por bobagens. No mais, seus voos estão cada vez mais no tempo e na memória. Belíssimos. Abr. (carlos)

Maria Muadiê disse...

Aero, não só em minha casa, mas em toda a minha família, incluindo tias, primos, não se podia dizer essa palavra. Atraía a coisas terríveis! Outra coisa que não se podia falar era que adorava algo, a resposta vinha em seguida: só se adora a Deus.É como Carlos diz, o ranço católico.
Hoje, sou a favor da pronúncia de todas a palavras, inclusive as devastadoras.
bjo

Chorik disse...

Evito só dizer azar. Acabei de escrever, que desgraça!

Canto da Sereia disse...

Nem precisou fechar os olhos. Dá pra ver a tal cenografia... cabelos emaranhados a palavras cruelmente articuladas,frias, cada balanço de cacho, dedo em riste,um gelo n'alma. Para que dizer des...? Não precisa. A cena nos faz perder a graça, o rebolado, a esperança de ter algo humano em um ser des...damente desumano.

Meninadailha disse...

Já lhe disse e você não quer me ouvir, para se afastar dessa criatura infeliz que culpa o mundo pela sua incapacidade em se tornar gente grande. Quem vai perder é só ela que cava o ódio e a destruição por onde passa e que se continuar agindo dessa meneira vai ser sempre esse ser humano que rasteja. Você não precisa de gente desse tipo porque você é iluminada pelos espíritos de luz. E ela continua dando sorte por nunca ter passando no meu caminho, porque morro de vontade de lhe dizer as verdades que ela precisa ouvir, só por ter a ousadia de lhe dizer as coisas que diz.

Nilson disse...

Em Brumado e Caetité tb tinha isso. Seria "disgrama" um eufemismo???