domingo, 1 de março de 2009

Que o universo me escute


Que o universo me escute, tangível ou não, entre espumas de um rio distante, serpenteando, inclemente, seu destino. Que o universo me escute. Que não se ensurdeça, nem passe adiante, com ouvidos moucos. Senão eu grito. E de dentro de mim ele verá sair dentes e vísceras de mil anos, ferozes fêmeas queimando o mundo. Que o universo saiba disso. E não me interrogue. E finalmente me escute. Com seus olhos de fundo do mar, largos e curtos. Com suas faces continuamente mortas. Ora, que acorde, e assuma seu vulto! Sua forma indelével, perniciosa e muda. Eu estou viva. Minhas mãos tremulam ao toque das coisas; meu corpo ensaia movimentos no ar; meus cabelos insistem em crescer, crescer; e minhas mãos abertas são nítidas espécies de ervas, que proliferam.


Imagem: "A cigana". Carta do baralho cigano.
*Leiam o lindo poema de Marta, no qual foi inspirado esse texto: www.mariamuadie.blogspot.com

7 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

texto poesia pura

Nilson disse...

O universo te escuta, sem dúvida. Atentamente!!!

guilhermina, (ataulfo) e convidados disse...

Deixei um selo para vc na www.esquinadodesacato.blogspot.com
Bj
Guilhermina

Janaina Amado disse...

Fiquei intrigadíssima com esta carta do baralho cigano, tô pensando nela até agora!
Pergunta: a narradora sabe o que quer dizer ao universo?
"minhas mãos abertas são nítidas espécies de ervas, que proliferam": lindo!

Janaina Amado disse...

Aero! Só agora li o belíssimo poema da Martha, e entendi o seu post, rs

Janaina Amado disse...

PS - Vc. também podia ter dado uma dica aos pobres mortais, né não?

Maria Muadiê disse...

Aero, que beleza tudo isso! Primeiro, seu texto sensível, poético, bonito, segundo, o nosso diálogo.
Fiquei orgulhosa de conversar textualmente contigo,
um beijo bem grande de sua admiradora,
Martha