sábado, 7 de março de 2009

Mundo, Mundo


A casa de minha avó era grande, tinha quartos enormes e um quarto especial, dela, com colchão de mola e uma penteadeira. Apesar dos móveis estarem deteriorados pelo vento da roça, pelo tempo, era uma casa que gostávamos de ir. Nesse quarto sabíamos, com certeza, que não haveria fantasmas: dormíamos tranqüilas à luz do candeeiro de querosene. Nunca me esqueço que na penteadeira, próxima à janela que, às beiradinhas, o dia espreitava rindo, nessa penteadeira tinha, além de um vaso de perfume, o retrato de Raimundinho. Raimundo, vulgo Raimundinho, primo nosso, neto criado pela minha avó como filho, e chamado carinhosamente por ela de "Mundo". O retrato parecia feito a bico de pena, com tons verde claro e escuro, ilustrando a carona gorda daquele menino mimado, vestido de paletó e gravata. Devia ter, à época, uns quatro pra cinco anos.
Raimundinho foi criado no dengo, ficou gordo de tanto comer doce, e quando cresceu deu pra ruim, o que não poderia ser diferente. Brigávamos todas as vezes em que nos víamos; parece que eu já pressentia que dali não iria sair coisa que prestasse. Ele gostava muito era de minha irmã, e fazia questão de deixar isso bem claro, escolhia a ela, e não a mim.
Minha avó dava razão a todas as suas malcriações, meu avô ria diante de suas diabruras. E foi com seus onze pra doze anos que o capetinha fez sua primeira patifaria: vendeu, de má fé pra pai, uma bicicleta quebrada. Daí em diante começou a tomar gosto, e num belo dia fugiu pra São Paulo. De lá não mandou nem duas linhas escritas para minha avó, quanto mais um sabonete. E ela sempre o defendendo, com força e pureza: Coitado, não tem nem tempo, trabalhando... Trabalhando? Oh, Raimundinho, Raimundo, Mundo, virou em São Paulo - isso sim -, uma má rima drummondiana. De seu retrato restou apenas o espanto, na casa que não mais existe.


Imagem: "Casa da avó", por Fernando Gomes Semedo.
(www.flickr.com)

5 comentários:

Maria Muadiê disse...

Aero, adoro seus textos, são além de tudo, inspiradores.
E vc sempre encontra a imagem certa!

Valeu a cumplicidade lá no texto sobre meu pai. Me ajuda a enfrentar esse março.
um beijo

Bernardo Guimarães disse...

belíssimo texto!

Carlos Rafael Dias disse...

São essas moradas do passado
Que nos dão o chão de agora
Pise forte nele, Nauta
Deixe suas marcas pro futuro

Janaina Amado disse...

Vingança tarda mas não falha, diz o povo - este ingrato raimundinho deve de estar muito male, como também o povo diz. Belo texto.

Renata Belmonte disse...

Seus textos são sempre exraordinários.
Beijos,
Renata