domingo, 7 de junho de 2009

de todas as genealogias


Tinha 15, eu 20. Tinha 15, eu 17. Outrora 42, eu 26. Estava de passagem, carro cinza, olhos azuis. Ficou, colocou uma aliança no meu dedo no dia das eleições. Eu, 29. Cabelos longos, e uma música entre os dedos: ele levava em si uma moto em plenos anos 90, ouvindo Pink Floyd no gravador portátil. Eu fiquei bêbada com suco de lima e vodca. E tinha 22. 14 Bis cantava no carro velho, uma poeira vermelha subindo, nós dois indo para o poço encantado, fugindo dos pais. As costas dele preservavam espinhas enormes, por causa das caixas de chocolate branco escondidas no carro. Não me devolveu o I Ching que lhe presenteei no aniversário. Ele tinha 30, eu 33. Uma cicatriz na perna, cabelo espetado, unhas enormes nos pés. Casei em um dia de chuva, sem anéis. Uma única vez nos vimos e uma única vez nos separamos. Ele compunha música em espanhol, parecia um cigano. Me levou para a pedra mais alta da cidade e falou em anjos, duendes e zen-budismo. Carlos, seu nome. Ou seria Antônio? Não me lembro. Lembro dos seus dentes brancos, muito brancos, rindo no vento daquela madrugada alta, serrana, e de uma mancha discreta em suas têmporas. Ele tinha 20, eu 30. E era tanta pressa que víamos, e solidão que carregávamos, que nos separamos sem filhos, que nos casamos em maio.



Imagem: "angusto dos anjos", por anacarlasky.
(www.flickr.com)

17 comentários:

Renata Belmonte disse...

Com os cabelos do braço arrepiados!!!! Maravilhoso!
Beijos,
Renata

M. disse...

Lindo de morrer, de viver, de querer levar comigo. Sempre.

Katia Borges disse...

Poxa, lindo demais. Beijo

maria guimarães sampaio disse...

Muito muito.

Bernardo Guimarães disse...

gostoso de ler e imaginar...

Andréia M. G. disse...

Muito bom! :-)

LÍVIA NATÁLIA disse...

Publique, por favor!!!!!!

Mirdad disse...

"Me levou para a pedra mais alta da cidade e falou em anjos, duendes e zen-budismo".

Putz! O alto provoca esses trecos nos ingênuos. Haveria tanto mais o que conversar ali. Aliás, não conversar, seria melhor. Enfim, ali, qualquer coisa que saísse dele, pra vc, era (e é) lindo.

Gerana Damulakis disse...

Encontro e desencontro, um toque de romantismo, outro tanto de retórica, a dialética ali reinando no texto. Parabéns!

Janaina Amado disse...

aero, texto sensível, gangorras.
olhe lá no acreditando, tem você.

Nilson disse...

Perfeito! Genial! Demais!!!!!!!!!!

anna disse...

Não sei se este texto é autobiográfico, mas como seus leitores jamais poderão saber, apenas digo que você produz ficção como ninguém. O seu eu poético se revela grandioso em qualquer altura que você esteja. Resta para nós, visitantes deste blog, a espera de outras profecias oriundas das nuvens.

Chorik disse...

Esse texto um dia cairá no vestibular. Quer apostar?

Renata Belmonte disse...

Não fiquei um dia na rehab de blogs, viu?(rs)
bjs

Carlos Barbosa disse...

Oi, Aérea Persona. Quem é do alto não enjoa, toda tormenta é garoa, ou coisa parecida. Fumaça, névoa, liblina, que importa, quem importa? A gente jamais consegue sair de dentro da gente. Abr. (carlos)

Maria Muadiê disse...

belo texto!

Lisi disse...

Lindo demais!!!!