quinta-feira, 25 de junho de 2009

Do tamanho do céu


Contam que a família descobriu a doidice quando deram com ela matando uma galinha e colocando-a, inteirinha, com pena e tudo, dentro da panela. Só aí a filharada se deu conta de que ela não poderia estar certa. Mas para todo mundo isso não era novidade não. Uma pessoa que só ficava na janela, olhando a rua, e que ninguém conhecia de corpo inteiro, só dos braços pra cima, não poderia ser normal. Diga-se, pra início de conversa, ô povim estranho aquele. O pai, oficial de justiça, sempre andando pra lá e pra cá na rua, segurando um pauzinho torneado, mandado fazer na serraria. Ninguém jamais entendeu por que aquele pauzinho na mão do dito, pra lá e pra cá, na cadência de seus passos de serventuário da justiça. Magrelo de ver as costelas. A filharada também, magrelos todos. O mais estranho é que eram estudiosos, tiravam primeiro lugar nas matérias, calados, nada de conversar as coisas com os outros. Moravam na rua da glória, numa casa de porta e janela. Janela na qual a mãe se prostrava a olhar a rua, com a cara pro ar, sem nunca de lá ter saído pra canto nenhum. Diziam que o marido era ciumento. Mas quá, ciúme daquilo, as pessoas na rua gargalhavam. Ciúme ou não, ninguém nunca ouviu a voz dessa senhora de boca fechada e cabelos ralos. Só a família, certamente. Porque não é de se acreditar que dentro de casa ela não abria a boca, não reagia.
Era o que o povo na rua comentava, que alguém da família dizia alguma coisa que fosse sobre eles mesmos. Pois de onde surgiu aquela história da galinha? De lá de dentro, claro. E isso não é coisa alegre pra um filho ou uma filha presenciar: uma galinha inteira, com pena e tudo, indo pra panela levada pela mãe.
Mas o que depois foi dito e batido na cidade era que ela já vinha, há muito tempo, comendo galinha inteira, sem depenar. Pois de uma hora para outra a mulher deu pra sentir umas dores estranhas na barriga. As dores, segundo contaram, eram provenientes de um peixe-cometa passando para lá e para cá no estômago. Desse dia em diante a janela ficou vazia. A filharada nem tchum, tirando primeiro lugar na escola e passando em todas as provas, sem notícia da mãe. O pai, com seu pauzinho torneado na mão, assoviando na rua em hora de trabalho. E o peixe-cometa acabou virando peixe-boi. A mulher não estava se aguentando mais, contavam. Porém os filhos continuaram nada demonstrando, como sempre calados e estranhos, e tirando nota boa na escola. Até deu-se o final de tudo, quando viram no cemitério velho uma mão segurando a galinha sapecada, ainda carcarejando, e a outra uma panela de alumínio, brilhando de nova. Do lado, aguardando, uma fogueira do tamanho do céu e uma lata de querosene.


Imagem: "Fogo", por Daniel Lavenere.
(www.flickr.com)

4 comentários:

M. disse...

Você é incrível. Que história!!!

Luli Facciolla disse...

Ufa.. Assutador!

Beijo

maria guimarães sampaio disse...

Aero, você, você! Grande conto. Abafou a banca!

Gerana disse...

Maravilhoso, adorei tudo: estilo, história. Parabéns!