terça-feira, 2 de junho de 2009

invenção mais besta


Nunca, nunca fui com a cara de Santos Dumont. Que invenção mais besta, essa. No primário a professora mandava a gente copiar no caderno a biografia desse homem de chapéu, paletó preto, gravata, terno compenetrado. Copiava, sempre com uma dor fina no peito. Que invenção mais besta, meu Deus. O ar não é feito para gente metida a inteligente inventar coisas. Deixem o ar em paz. Que mania o homem tem de ser inventor. "Quem inventou o avião?" Todos respondiam: "Santos Dumont". Mais tarde ouvi "Não foi ele não". Pra mim sempre foi ele. Ele, elezinho mesmo, o culpado. Pois que se Deus inventou a morte, o homem, por seu turno, inventou as mais terríveis modalidades de morrer. E a mais terrível que eu acho é essa: morrer no ar. Despencar de lá com a maior das agressividades, corpo em retalhos, perplexidades de ventos atônitos vendo todos irem direto para o mais duro dos firmamentos. Isso é lá poesia que se escreve? Por que teve o homem que inventar essa cruel modalidade de morrer? Ah, que o ar, pelo menos, seja leve



Imagem: "Santos Dumont (graffiti)", por Serlunar
(www.flickr.com)

11 comentários:

Marcus Gusmão disse...

Aeronauta, seu texto e o de Renata me fizeram quebrar a jura de não ler mais nada sobre o assunto.Já disse e repito. O seguro é voar nas nuvens da Aeronauta, na bela prosa e poesia da Aeronauta. O único risco, grave, é a gente cair em si.

Maria Muadiê disse...

Me lembrou:

"O Grande Desastre Aéreo de Ontem


Para Cândido Portinari


Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol."

Jorge de Lima

Bernardo Guimarães disse...

seu texto é lindo, como sempre,mas me permita discordar. como filho de piloto*, não reconheço neles ( no avião, portanto) objeto de morte.
* leia meu blogue hoje.

Marcus disse...

bom,magnífico,excelente,esplendoroso...

Chorik disse...

Sim, eu sei, quem precisa de aviões para ir às nuvens? Mas não deixa de ser irônico uma Aeronauta que não gosta de aeronaves.

Curiosidade extra: Santos Dumont suicidou-se ao ver seu invento usado na guerra. Numa mensagem a Chico Xavier teria dito: “Não há vôo mais divino que o da alma.
Não existe mundo mais nobre a conquistar, além do que se localiza na própria consciência,
quando deliberarmos converter-nos ao bem supremo. Alcemos corações e pensamentos ao
Cristo”.
Bjs aero, gosto demais de seus textos.

Eliana Mara Chiossi disse...

Então, saudade de vir aqui, ler, gostar...

Beijinhos

Nilson disse...

Muito sagaz isso: inventamos as mais terríveis modalidades de morrer. Tô com Marcus na constatação de que a aeronáutica mais interessante, vital, é sem dúvida essa daqui!!!

Maria Judith. disse...

Apois.
Eu acho que foi ele mesmo que inventou o avião, ninguém mais. E também discordo de vc, com a alma compungida, porque detesto discordar de quem gosto. Avião é o que há!!!
Me leva quando eu quero ir longe, e sempre voltei.
No caso do meu avião cair, só peço que caia na volta. Morrer na ida é muita sacanagem...

Katia Borges disse...

Oi, mande um e-mail pra mim, queria falar reservadamente com você. Um beijo

Ives Röpke disse...

Aero, você conseguiu poetizar essa coisa trágica que é a morte por acidente aéreo. Eu também detesto avião e, como você, acho que voar mecanicamente é uma desnatureza.

Lisi disse...

Não conhecia este teu lado irônico de ser (rsrs).Muito bacana!!!
abraço!!!