terça-feira, 23 de junho de 2009

feito um balão


chapéu de crochê... alguém se lembra aí de ter visto alguma criança com chapéu de crochê? era eu, cor vermelha, combinando com a roupa de chita de colchão, da mais ruinzinha. caipira de noite junina tem que ser autêntica. mãe sempre amou essas autenticidades. isso porque depois ela obrigava a gente a vestir as roupas de chita de colchão, da mais ruinzinha, nos dias comuns. com o chapéu de crochê. em dias comuns, indo para a banca, estudar, parecendo duas matutas. aliás, éramos duas matutas autênticas. minha irmã era uma matuta ladina. achou um caminho pelo rio, e com muito trabalho conseguiu, em duas horas, me ajudar a criar coragem para pular as pedras cheinhas de limo. escorrega aqui, cai lá, molona que você é, ela me xingava. nós duas, enfeitadas de são joão em pleno novembro. mas ninguém viu, no rio só as lavadeiras lavando prato acocoradas não tinham tempo de ver vestimenta de quem passava. chegando na banca, minha irmã ria de sua astúcia. está vendo?, ela dizia, ninguém viu a gente com essas roupas horrorosas. na volta, do mesminho jeito, pulando pedras, uma hora e meia pulando pedras, eu já ficando craque. chegando em casa abri a boca, língua grande gabando o que não podia: mãe, tu não sabe, a gente descobriu um caminho pelo rio, ninguém viu nossas roupas. ah é?, ela gritou, pois agora vá lá na praça sozinha e volte, dê um passeio pela praça. e lá fui eu, desfilando no sol quente, em pleno novembro, com meu chapéu de crochê e minha chita de colchão. nem sabia jamais que esse chapéu e esse vestido não se acabariam. estão aqui em minhas mãos, no cocuruto de meu juízo, ambos feito um balão; balão que não se queima, nem ao menos queima o mundo.


imagem: "balões de são joão", por julio leite.
(www.flickr.com)

11 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Lindo, lindo, Aero.
Hoje meu irmão ligou: já engomou seu vestido de tabaroa?

Chorik disse...

Puxa Aero, e eu que nunca brinquei no São João, não ia a festa junina, nunca dancei quadrilha. Chapéu de palha nunca usei, nem do mais ruinzinho.

Gerana disse...

Que estilo, estou cada vez mais estupefata: texto de mestre.
Hoje teve leitura aqui de seus textos em voz alta: eu para Aramis.

Ulisses disse...

Sua escrita é uma hipermemória contínua na qual derivamos docemente em suas dores, receios, medos, habitando outra vida nos seus périplos inventivos que traz luz às nossas madrugadas.
Um grande abraço

aeronauta disse...

Maria: obrigada, querida. E aí, engomou o vestido?
Chorik: que pena você não ter se fantasiado de caipira, nem dançado quadrilha... Ainda dá tempo.
Gerana: obrigada. Fico lisonjeada e contente em saber que meus textos são lidos por você. (Para Aramis? Puxa, que honra!)
Ulisses: tão bom receber seu carinho, sua leitura. Um grande abraço, pra você e sua Penélope.

Janaina Amado disse...

Bem, eu ia comentar alguma coisa sobre a memória-beleza do seu texto, quando li o excelente comentário do Ulisses. Assino embaixo!

Renata Belmonte disse...

Lindo, lindo, lindo!
Saudades da srta!
bjs

Luli Facciolla disse...

E-amiga!
Indiquei vc lá no meu blog para receber o selo de blog humanista!
Quando puder, vá lá conferir!

Beijos!

M. disse...

Quem realmente escreve é você, minha querida. Beijos.

Bernardo Guimarães disse...

como foi bom ter conhecido a menina da ilha pessoalmente. cada vez que leio um texto seu de memória, mais gosto do que vc escreve. e sua irmã faz uma falta...

Menina da ilha disse...

Lendo seu texto, parece que ainda estou vestida com aquelas roupas que eu odiava. Fiquei traumatizada e até hoje não suporto nem ouvir falar em CHITA. Imagine uma adolescente de olho "CUMPRIDO" para os rapazes e vestida daquele jeito... quem é que ia me olhar? Só restava mesmo era me esconder pelos limos do rio Gafanhoto. Tenho cá para mim que essa era a verdadeira intenção de mãe quando nos enfeiava com tudo de rídiculo que sua imaginação mandava.