sábado, 18 de agosto de 2007

O amor e suas pérolas lingüísticas

O amor nos faz bobos. Improdutivos. Sem linguagem. Ou com linguagem verbosa. Diante da pessoa amada, há braços demais, e uma falta de assunto então... Daí nascem pérolas, como aquelas que a literatura trouxe para nós, inesquecíveis:

* Macabéa, coitada, diante de seu amado Olímpico de Jesus, não tinha lá muito o que dizer; aliás, ela não tinha, de nascença, palavras. Num certo passeio sob a chuva (ele dizia que ela só sabia chover), pararam diante de uma loja de ferragem "onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos". E Macabéa, com medo do silêncio grande que se formava entre ela e o seu amor, tratou logo de puxar assunto:

"- Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?"

* Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de patente, nos seus dois metros de altura, enfrentador de tudo que é bicho do mato, de cobra a lobisomem, verboso que só ele, mesmo sendo famoso "mulherista" queria por queria encontrar amor, pois que descobriu que seu viver "vivia a pedir costela". E afinal encontrou: Dona Isabel. Desejoso de "amamentar" conversa com a senhorinha, professora da cidade grande, o coronel Ponciano entrou numa "inquirição desgovernada":

"- Vossa Mercê já foi mordida de cobra?"
"- Dona Isabel já viu a pessoa de um boitatá?"
E etc, etc, etc.

Ah, o amor e sua terrível subordinação à linguagem. Sabemos bem sobre tudo isso. E a literatura mais do que nós. Está tudo lá, nas suas devidas páginas, principalmente o que vem nesse texto sob os auspícios das aspas: em "A hora da estrela" de Clarice Lispector, e "O coronel e o lobisomem", do maravilhoso José Cândido de Carvalho.

8 comentários:

Anônimo disse...

Como uma lâmina fora da bainha, o amor queima, entonteia, burila, emfim, uma coisa de doido(rs). Meu nome é Thiago Lins(www.revistaentreaspas.blogspot.com)e é um prazer, minha cara. Aquele abraço. P.S: hithcock_1899@yahoo.com.br

katherine funke disse...

lindo. o amor tira as palavras da gente. daí eu recorrer às reticências de vez em quando. levo a algumas personagens algo de mim -e eu me calo muitas vezes. nem tudo deve ser dito. incrível como clarice & outros gênios fazem do que é dito algo tão bonito.

Personagem Principal disse...

Hahahahahah, adorei! Sabe o que O Cara do Casamento perguntou à Personagem Principal minutos antes de beijá-la pela 1ª vez?

- Qual o doce que vc mais gosta?

Luíza disse...

Esses dias num desses dias assim, pergumtaram-me, durante um silencio ensurdecedor:
pra que time tu torce?

é pra acabar com qualquer tentativa de amor, não?!

gostei de ler-te.

Bjs
Luiza

Mayrant Gallo disse...

Gente, vamos resolver o assunto: apresentemos Macabéia a Ponciano, e pronto. Acho que Clarice e Zé Cândido deveriam ter escrito este "romance" a quatro mãos... Mas aí não nos dariam estas maravilhosas verdades, que são "A hora da estrela" e "O coronel e o lobisomem".

Luíza disse...

gostei do teu blog voltarei sempre mesmo.

mas e pq tinha q ser Clarice mesmo??

Renata Belmonte disse...

O amor e a literatura nos tornam tão vulneráveis...Me calo diante da beleza dos teus escritos.
Beijos,
Renata

O Sibarita disse...

Olá! Mas, o amor é isso e mais aquilo, não?

É a navalha cortando a carne...

abraços,
O Sibarita