quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

profunda e perdida graça


Gosto muito de uma crônica de Cecília* na qual ela propõe uma visita insólita a Drummond. Começa assim:

"Ouvi falar no seu aniversário - ontem ou hoje - e apresso-me em fazer-lhe uma visita. O caso ficará célere nos anais da história literária, pelo menos, pois ambos gozamos da justa fama de avessos a esse gênero de esporte. Trata-se, porém, de uma visita diferente, invisível e pelo ar, maneira certa de encontrá-lo, dada a sua latifundiária ocupação de "Fazendeiro" do referido".(grifo meu)

Visita invisível: algo mesmo próprio a esses dois poetas. Drummond, o eterno fazendeiro do ar, um dia escreveu: "Do lado esquerdo carrego meus mortos./ Por isso caminho um pouco de banda"*: demonstração lírica do conhecimento de todos os mundos invisíveis que habitam o que somos...

Agora no ar, no invisível, imito Cecília e te proponho uma visita. Nela nada falaremos. Tu, sentado numa poltrona sobre uma rua de calçamento antigo, flutuando no espaço (e eu do outro lado), me olhará com uma profunda e perdida graça: dessa que as palavras jamais se alimentam, jamais se alimentarão... E que só o silêncio conhece, com sua aura de ternura e esquecimento.


*MEIRELES, Cecília. Visita a Carlos Drummond. In:_______. Escolha seu sonho. 21a. edição. Rio de Janeiro: Record, 1998.
*ANDRADE, Carlos Drummond de. Cemitérios: IV - De bolso. In:_______. Fazendeiro do ar. Rio de Janeiro: Record, 1993.
Imagem: "Montanhas, nuvens e o ar", por tomnetoself. In: www.flickr.com