segunda-feira, 23 de junho de 2008

Noite de São João

Depois que pai morreu, o São João deixou de existir. Pai era o responsável pela fogueira. Era ele quem, pontualmente, às sete horas da noite, saía na porta, já arrumado, para acender a fogueira feita no final da tarde.
Agora, nesse momento, são quase cinco horas: pai já estaria na porta de casa, com as lenhas ao lado, a fim de construir uma fogueira alta, grandiosa. A rua nossa, pequena e estreita, ficava explodindo com milhares delas. Enquanto juntava artesanalmente as lenhas, pai conversava com o vizinho, dono da fogueira em frente, que também armava a sua: seo Landulfo. Não sei o que eles conversavam, talvez sobre as lembranças que ambos traziam dessas festas tão sinceras. As pessoas passavam de lá para cá, animadas, e os menininhos já iniciavam a sua soltação de traques. Havia concurso de ruas, e nessa hora os moradores arrumavam as bandeirolas, pregavam os retratos de São João nas portas, colando flores, muitas flores de papel crepom, em cada janela. Tudo muito colorido, tudo muito feliz. Mãe nos arrumava com roupas de chita, fazia pontinhos pretos na nossa bochecha e punha batom na nossa boca. Enquanto isso, depois de armada a fogueira, pai ia tomar banho. Vestia-se todo, se perfumava, e às sete, pontualmente, estava na porta com muitos fósforos e álcool, a fim de fazer nascer dali, daquela fogueira tão linda, uma grande festa. Vejo agora, de uma distância tão grande, a primeira fagulha que, animada, ia se propagando com uma força extraordinária: aquela que fazia pai dar um sorriso de satisfação e orgulho. Trazíamos para a calçada um saquinho amarelo com nossas caixas de traques. Ah, o barulho era uma catarse, para toda criança. As maiores, as mais afoitas, soltavam bombas e vibravam com o estrondo. E as chuvinhas? Eu adorava. Haja chuvinha para dar conta de uma noite de São João. Pai, animado, recebia as visitas; visitas que vinham de casa-em-casa, uma tradição do lugar. A mesa da sala as esperava com muito bolo de milho, avoador, pamonha, rosquinhas, amendoim, licor e quentão. Elas chegavam, comiam, bebiam, dançavam e depois seguiam adiante, para a casa em frente. "São João de porta-em-porta", era esse o nome dos grupos. Pai sempre muito feliz; afinal como ele dizia, "aquela era uma festa de roça", ele que nunca se acostumou a morar na cidade, mesmo pequena. E rindo, recebia seus amigos, falando de política e contando casos antigos. Era assim o nosso São João.
Depois que pai morreu, mãe não quis mais, de jeito nenhum, que armássemos fogueira. Na nossa porta ficou um grande vazio. Seo Landulfo, em frente, armava a sua fogueira sozinho, sem um amigo para conversar. E nós, adultas e tristes, andávamos para lá e para cá, sem nenhum traque nas mãos.

4 comentários:

Anônimo disse...

Irmã Aeronauta,
esqueceu de dizer que vc morria de medo de bombas e que só soltava chuvinha quando não tinha nenhum menino soltando as tais bombas por perto. Belas lembranças. Concordo que a fogueira perdeu completamente o encanto sem a nossa "cumieira da casa" (como ele dizia).

Mônica Menezes disse...

Aeronauta, meu pai João adorava São João e morreu no São João passado, mas ele não aceitaria que eu ficasse triste hoje, pois, segundo ele, "Junho é o melhor mês no ano: pro de comer, pro de beber e pra se ficar proseando no calor da fogueira". Por isso, eu amo o São João.

maria guimarães sampaio disse...

Aeronauta,
amanhã é dia de são Pedro, tente com Mãe, fazer uma fogueira.
Seu texto me emcionou, muito!
Maria

Nilson disse...

Lindos os seus textos, e ainda mais esse do São João. Tb sou do interior e lá tb tinha fogueira, e esse sentimento de um mundo tão próprio, junino, tb me habita e vai continuar habitando. De certa forma continuamos crianças, soltando traques numa noite dessas!!! Bjos.