terça-feira, 3 de junho de 2008

Página de um diário

Não estou em nenhum lugar da casa. Nem na fotografia de propagandas antigas que mandei emoldurar. Muito menos nos movéis comprados, no sofá novo, na cadeira de balanço... Hoje pela manhã fui trocar a água, foi um desastre: foi água para todo canto da cozinha. No banheiro quando fui pegar o papel higiênico percebi que tinha comprado papel-toalha. Como se aprende a viver sem você? Aliás, como encontrar a moça que deixei lá atrás, sempre avoada, mas que conseguia sobreviver sozinha? Procuro por ela. Ela era triste, como ainda sou. E gostava de ler livros grossos, como ainda gosto. E sempre sonhou ter uma cadeira de balanço. Agora a dita cuja está aqui. Só falta ela, a moça que fui, com seu longo olhar triste, mas determinado, sentar-se nessa cadeira e encontrar líricas companhias.
A casa silencia. Nunca mais ouvirei suas onomatopéias, seus risos contidos, seu passo lento andando para lá e para cá, me acordando cedo. Nunca mais. Ouvirei apenas os meus, sempre apressados, ou calados, murmurando ecos escondidos. Para quem contar meus sonhos, ao acordar? E, ao chegar de viagem, para quem relatar coisas que vivi? Não, não é preciso, diz a moça que um dia fui, estou aqui. Vamos ouvir alguma música, ler Mario Quintana, Manuel Bandeira... A moça é destemida, livre, tem os cabelos soltos, e grita por mim...

4 comentários:

Carlos Barbosa disse...

Isso, Aérea Persona. Faça de asas seus cabelos soltos. Destema por completo as ruas e o catecismo. Seu diário é um colar perolado. Abr. (carlos)

Marcus disse...

Consigo ver as duas pessoas andando pela casa, dialogando, se reconhecendo nas diferenças e nas semelhanças que resistem ao tempo. Como naquele truque do cinema, quando um personagem que morre volta meio transparente e contracena com ele mesmo. Este texto seu dá um belo filmete de um minuto. No dia em que houver tecnologia disponível para qualquer amador fazer isso vou pedir os direitos para filmar.

Anne disse...

Hoje em dia também me reconheço muito pouco e é sempre um susto constatar isso. Então invento coisas que distraiam essa pessoa, para que ela não me amedronte. Ás vezes dá certo, às vezes não, mas vou tentando....

aeronauta disse...

Carlos: obrigada pela assídua visita a essa aeronave;
Marcus: me senti o máximo com sua proposta: você tem todos os direitos garantidos para o filme.
Anne: que bom vê-la por aqui!