domingo, 15 de junho de 2008

Mais nada

Há dias em que não há lugar para a eloqüência. Há lugar sim, para as frases curtas. Para o silêncio absoluto. Para olhar e continuar. Me dê sua mão, vamos caminhar pelo escuro; pelo claro não. A claridade é cega, é vesga, é surda. Vamos entrar no milharal, às duas horas da madrugada. Será que lá no alto do barranco, naquela casa dos anos setenta, ainda toca Amada Amante? E minha mão, estará gelada? Vá, pegue na minha mão, preciso usar meus sentidos, como antes. Sua mão é áspera, e não me acolhe como deveria. Sua mão é simulacro, vácuo, onde toco o nada. Veja: ela é pesada, e não se abre sobre a minha palma. Sua mão tem medo da madrugada. O que adianta esse rádio antigo, no alto, continuar cantando Amante Amante? O que adianta? Não, não há lugar mesmo para a eloqüência. Há uma encruzilhada, um silêncio imenso... e uma infância. Mais nada.

Um comentário:

Anne disse...

Fico cada vez mais encantada com a sua escrita: belíssima. As vezes acho que vc fala por mim (rs). Um beijo grande.