segunda-feira, 2 de junho de 2008

Divindade alegre

Aos oito anos experimentei o corpo e o sangue de Cristo na primeira comunhão, e fiquei hilariamente decepcionada. Vi que a hóstia era uma coisa sem gosto e que grudou logo no céu da boca e ficou por lá distraída. E o sangue? Ah, era um suco de uva, ou um vinho amargo, não sei direito. Sei apenas que fiquei admirada com as coisas dos adultos, não de Cristo, pois que este não tinha nada a ver com aquela encenação-armadilha-engraçada para pegar as crianças.
Morávamos na mesma rua onde havia a Casa Paroquial, e esta era uma extensão de lá de casa. Mãe nos mandava para lá para que ela pudesse ter um pouco de sossego. Daí surgiu nossa relação assídua com a igreja: cantávamos no coral, pregávamos o catecismo, conhecíamos todos os padres italianos que chegavam, comandávamos as primeiras comunhões das outras crianças... É, aquelas que iriam sentir logo logo, como sentimos, o "gosto" que tinha a hóstia...
O episódio da primeira comunhão funcionou como se uma Mão Maior resolvesse, na hora certa, descortinar a vida, para que eu finalmente pudesse ver as grandes comédias que os personagens do mundo faziam. Nasceu desse momento, pois, a minha fase hilária de criança-beata. Agora eu e minha irmã só íamos à missa para rir. Rir dos penteados das velhas. Rir de todos os rituais. O nosso senso de humor começava a aflorar, demasiadamente.

... As mangueiras da Casa Paroquial; os gibis em italiano; a doçura de Frei Luís; a beleza do Padre Eugênio; a gulodice do gordo Vitório comendo, de uma só vez, um tomate inteiro; os slides bíblicos; a casa enorme, a grande escada que dava para o sótão, a imensa sala de jantar; e na igreja o belo nicho de pedra de Nossa Senhora das Graças... O sino chamando para a missa, a criançada toda sentada na primeira fila... Ah, tudo isso povoou a minha infância com o cheiro eterno de divindade alegre!

2 comentários:

Críticas Criticáveis disse...

Tb fui coroinha na época da primeira comunhão, acredita q só me confessei naquela época? Q vergonha!

Nilson disse...

Eu tb tive essa decepção com a hóstia... mas, ao contrário, levei tão a sério as coisas que tive uma espécie de crise na pré-adolescência: tava me afastando de deus, imagina. Vc descreve as coisas de um jeito tão delicado. O catolicismo é bonito, bonito e oco. Bjos.