sábado, 11 de abril de 2009

Miniconto: Dos piores castigos


É, ele disse com a voz mais simples do mundo que agora ia viver para o espírito. Ou seja, que a minha carne se danasse. Que a minha carne fosse chorar em outra freguesia. Que o que ele queria agora era planar nas alvuras celestiais dos que tem juízo, dos que tem respeito, dos que tem moral, dos que vivem plenamente entre os santos. Fiquei espantada ao ouvir isso dele. Logo ele, o maior canalha que já conheci, o homem mais homem que minha mão já tocou, logo ele me deixando de lado. Pois então que se dane, vá viver para o espírito, pois minha carne ainda não morreu. Que se enterre vivo, entre as funduras do umbral, barro e lama, seu estrupício. E mereça depois toda a nudez e vileza dos céus.


Imagem: "sombra", por alu rubio.
(www.flickr.com)

11 comentários:

Jardel disse...

Valorizar as questões espirituais talvez seja a melhor possibilidade de encontrar equilíbrio diante das agruras e desatinos da vida. Valorizar a carne em demasia talvez seja tão ruim quanto viver preso nas nuvens.
Abraços Aero.

Jardel disse...

Valorizar as questões espirituais talvez seja a melhor maneira de enfrentar as agruras e os desatinos da vida. Valorizar a carne em demasia talvez seja tão ruim quanto viver preso a uma nuvem.
Abraços Aero.

maria guimarães sampaio disse...

Bom, Aero. Grande mini-conto. Valeu.

imonizpacheco disse...

Forte texto!!! E lindo.
Adorei as pragas, vou usá-las, com sua licença, para canalhas semelhantes.

aeronauta disse...

Oi, Jardel (que eu sei e não sei quem é): não confunda as vozes narrativas, meu querido. Nada prova que quem está falando aí é a aeronauta. Portanto, tire a doutrinação e as nuvens do meio do caminho. Abraços.

Chorik disse...

Vou ter que citar esse seu miniconto no meu blog. Espere e verá! Abraços e obrigado pelas visitas!

Eliana Mara Chiossi disse...

Que se enterre vivo quem não ouve a sabedoria do corpo.
Feliz |Páscoa, e um desejo muito sincero de que estejamos próximas, neste ano.

Beijos

E vocÊ já sabe como é difícil explicar pras pessoas que há uma distância entre as histórias que escrevemos e as que vivemos...

Maria Muadiê disse...

Agora que compartilhamos avô, somos primas.
bjo

M. disse...

Amei o meu presente. Amei, amei, amei. Obrigada. Beijos, M.

Ulisses disse...

Bom te ver no universo da prosa também... Seu talento transcende os gêneros literários e o seu conto traz tamanha densidade que em nada ele se faz "mini". O conto é isso mesmo, esse "soco rápido e forte no estômago" que nos deixa sem fôlego. Abraços

Marcus Gusmão disse...

Gostei muito, muito mesmo, do miniconto. Especialmente das pragas e xingamentos. E mais especialmente do xingamento estrupício. Eta palavra deliciosa. Estrupício, estrupício, estrupício... Vou sair por aí dizendo pro motorista escroto que me atravessar: estrupício. Pro burocrata imbecil que só entende a burocracia: estrupício. Pro político sacana que pensa que nos engana: estrupício. Pra balança que não desce: estrupício. Pra pressão nas alturas: estrupício. Pro desânimo: estrupício. Pro orçamento que não fecha: estrupício. Pra qualquer pessoa que se acha: estrupício...
Obrigado, aeronauta, você me lavou a alma hoje com este estrupício.