quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sob a proteção da palavra


Ainda estou sob o efeito que o texto "no divã" causou em mim. Encenei. Vivi. O que importa o tanto de ficção que há nele, ou o tanto de biográfico? De fato foi uma encenação pincelada de inverdades, de verdades. De mentiras. Tudo misturado. Diria mais, foi uma encenação que não me deixou impune. Saí com a sensação de que lá dentro daquela sala kafkiana deixei minha alma. A escrita diz o que a palavra proferida a viva voz não consegue. E eu nunca sei falar nada. Desde pequena escrevo pra não precisar falar. Sinto que é uma forma de tentar seduzir o outro, já que não sei mesmo falar. Por isso não queiram me conhecer: sou muda. As palavras que saem de minha boca são sempre intrusas, desordenadas, soltas, guturais. Vivo com a cara pra cima, ninguém dá dois mil réis por mim. Sou tímida de doer. Por isso rejeitei o convite de ir ler meus poemas no café literário e na praça da poesia da Bienal. Se eu fosse o que iria fazer com minhas mãos? Onde as colocaria? Meus poemas sairiam de minha boca de uma maneira torpe, infame. Melhor então que me leiam apenas por aqui, que me vejam por aqui, que me sintam por aqui. Aqui existo, a palavra me concede isso.


Imagem: p/ Morrocoy.
(www.flickr.com)

7 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

quer saber? nem quero mais te conhecer; já te conheço desde pequenininha...suas palavras me concederam isso.

Marcus Gusmão disse...

Não pára... Agora sem sacanagem, o conselho de Maria serve também pra mim (quem não estiver entendendo nada, o manual de instruções está na caixa de comentário do post anterior). O engano é a gente pensar que as pessoas acompanham o nosso blog post a post. Mesmo aqueles leitores mais fiéis dão uns saltos. Eu, que sou um apaixonado infiel, muitas vezes fico semanas sem ler um único post de um blog essencial e bacana como o seu. Tique nervoso, dda, sei lá, simplesmente não leio. Mas quando me bato com textos como o do estrupício, que ficou na minha cabeça dias a fio, e o anterior, a melhor e mais erótica tradução de transferência que já vi (transferência erótica não seria um pleonasmo?) fico entrando e saindo o tempo todo. Portanto, em nome dos leitores infiéis e volúveis... mais, mais e mais!

Marcus Gusmão disse...

E já que você está aberta a conselhos, eu, como leitor obsessivo (estes dias), peço que você avalie a possibilidade de suspender a mediação dos comentários. Sei que é arriscado, que tem gente baixo astral, mas a mediação atrapalha a troca de idéias entre comentadores. O bacana é quando um comentário já reflete o anterior, dialoga com o anterior. Com a mediação, a gente perde esta oportunidade. Por exemplo, neste post, se eu tivesse lido o comentário de Bernardo possivelmente começaria o meu de forma diferente, dialogando com o dele. Deste jeito fica parecendo que a gente muda de assunto. bjs. E não pára.

Nilson disse...

Pois eu tenho o hábito de tentar, pelo menos tentar, ler todos os textos atrasados quando fico dias sem poder entrar nos blogs prediletos. Acabo de ler os últimos três posts, de achar demais cada um deles, o do divã e o do estrupício, cada qual mais forte, pungente. Faço coro: mais!!!

Maria Muadiê disse...

Aero, não me sinto protegida pelas palavras, ao contrário, as palavras me desnudam.
um beijo

Maria Muadiê disse...

rsrsrs...lendo agora o comentário dos meninos me deu vontade de rir, ficou sensual esse pedido clemente (ou inclemente): não pára...não pára...
:)

LÍVIA NATÁLIA disse...

Aero,

more mesmo nas palavras que elas dão boa guarida. Acho que não invejo conhecer sua cara não pq já a conheço bastante, mas pq ela não dá conta do poço fundo de onde puxamos, suados, doridos, cansados, umas gotas d'água, post a post.

Você é toda feita de palavras, mesmo na carne, na substância mais viva e erótica, ela está lá - mesmo no silêncio.

Um rio profundo e cabralino de discurso.