quarta-feira, 22 de abril de 2009

perfil de mãe


Mãe é nonsense. Sempre foi. Um jeito de atropelar o assunto no meio e falar, olhando pra nossa orelha: que argolinha linda! De dizer sobre a saudade terrível que sentirá da avenida sete quando minha irmã se mudar do garcia. De conversar, sempre interpelando, quando me vê corrigindo provas ou lendo. De insistentemente repetir, depois de um sonho contado por mim, que sonho é ilusão. De afirmar que o torto está direito, que o feio está bonito, que tudo está perfeito, enquanto o mundo inteiro acha o contrário. De comprar livros de receitas e de simpatias. Da teimosia em não tomar o remédio de pressão e continuar comendo gordura, rebatendo depois com chá de chuchu. De olhar para o oriente em todas as fotos, em todos os grandes momentos. De ter uma maneira sui generis de não estar nesse mundo, com a cabeça sobrevoando tudo e o olhar distante. De, quando deseja fazer chantagem, repetir mil vezes aquela história de que deveria ter morrido quando ficou doente no Valha-me Deus. De chegar aqui em casa e ir direto para a pia lavar pratos, mudando de assunto ao sabor do próprio pensamento... Ah, mãe é o mesmo cabelo curto, sempre lustrando de preto. Um jeito, um sestro, as unhas dos pés pintadas de vermelho. Uma mania irresistível por brincos e remédios. Mãe é isso.


Imagem: "Self portrait", por Karina Seino.
(www.flickr.com)

19 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

lindo perfil de mãe-amada.
mãe é isso: mãe.
quando a gente ainda tem...

M. disse...

Que linda mãe! Que lindo texto! Bjs

Anônimo disse...

É isso e muito mais.Só ouve o que lhe agrada. Quando falo o que ela não quer ouvir, muda de assunto com a cara mais limpa do mundo. E não adianta insistir porque ela encerra o assunto e vai saíndo à francesa. Hoje me disse que falou com Vinícius que está tendo uma vida desassossegada. Que quando está longe da gente chora de saudade, e quando está conosco, sente saudade da sua casa no interior. Disse-me que Vinícius respondeu que nesse caso, só um psicológo para resolver. E ela com aquele jeito de criança desprotegida,acrescentou: -Será Menina, que resolve mesmo?

Gerana Damulakis disse...

Generaliza quem diz que as mães são todas iguais.Bacana, esta aqui descrita.

Gerana Damulakis disse...

Ah, coloquei o aeronauta lá nos meus favoritos. Mais prático, não preciso entrar pelo Madame K (embora seja minha rota, adoro KB). Enfim, é apenas para chegar mais diretamente, maneira de dizer da admiração que tenho, que vem crescendo.

maria guimarães sampaio disse...

Mãe é muitcho, muitcho porretinha. Adoro ela.

Lidi disse...

Fiz como a Gerana. Aeronauta já está na minha lista de blogs favoritos!

Maria Muadiê disse...

Linda foto. E esse seu jeito de chamar "mãe", deixa o texto ainda mais lindo.
Eu sempre digo minha mãe ou mainha.
Toda mãe é nonsense? A minha é, totalmente. E eu também sou.

Senti sua falta no lançamento.

Renata Belmonte disse...

Mãe lê seus textos? Acho que ela deve ter muito orgulho de vc.
Bjs!

Katia Borges disse...

Poxa, lindo. Sentimos sua falta (eu e Mônica) ontem no Café Literário, mas você esteve presente em nossa lembrança. BJ

Alguém que admira seus textos disse...

Já que vc não revela sua identidade, também prefiro não revelar a minha. Acompanho seu blog há algum tempo e hoje resolvi deixar um comentário. Seus textos são preciosidades. Este sobre mãe deixou um toque especial sobre mim. O bom de seus textos é isso, é possível senti-los.

Marcus Gusmão disse...

Ficamos eu e Soraya procurando você no café literário com Kátia e Mônica. Será aquela? não Aeronauta é mais nova. Aquela? não, Aeronauta teria um olhar mais atento, mais curioso, mais assustado...O mais diverdito foi que descobrimos mais uma "identidade secreta" naquela sala. M. estava também lá.

Mãe de Iara disse...

Aeronauta,
lindo texto !! Nós mães agradecemos !!
Bjs meus e de Iara

aeronauta disse...

Obrigada a todos pelos comentários.
Respondendo a algumas questões:
Renata: mãe lê sim. Esse texto aí ela disse que só tem duas verdades: sobre o brinco e sobre a lavação de prato na pia daqui de casa.
"Alguém que admira meus textos" - Obrigada. Fiquei curiosíssima pra saber sua identidade secreta.
Kátia e Marcus: senti muito não ter ido. Que bom que vocês se lembraram de mim. Bjos.

aeronauta disse...

Oi, Mãe de Iara, que bom você por aqui!

Nilson disse...

Graaaande perfil. Essa Mãe é realmente uma figura sui generis. E adoro essa palavra, sestro. Me lembra sempre que no interior há uma cruzada contra todos os gestos a que se denomina "sestro feio", como, ao passar pela calçada, olhar pra dentro das casas pelas janelas abertas.

Críticas Criticáveis disse...

Vc conhece minha mae? hehehe

M. disse...

Será? Será que M. estava lá?

aeronauta disse...

É mesmo: Será, Marcus, que M. estava lá?