quarta-feira, 29 de abril de 2009

O que sei de mim


O pior de tudo é que a gente não consegue se ver vivendo. Antes de ler Pirandello, em mim já habitava essa angústia; a angústia de não ter a totalidade de mim mesma, de não conseguir me ver por inteiro, nem no espelho: pois se olho para meu braço direito refletido nele, só vejo meu braço direito, e o resto do corpo se mira em olhar periférico. Não consigo saber como mexe minha boca quando faço um esgar; como brilham meus olhos quando sorrio; como ficam minhas sobrancelhas quando divago. Oh, quão estranho é não se conhecer, sequer externamente! O que sei de mim é o que me contam as pessoas e o que mostram as fotografias: ambas quase sempre falaciosas. Como, então, saber de mim?, se o olhar do amor me deforma e o da indiferença me anula? Se andando pé ante pé, na sala escura, acordam monstros de maior estatura e me degolam?



Imagem:http://talk-girl.blogspot.com

13 comentários:

LÍVIA NATÁLIA disse...

Este é, definitivamente, um dos textos mais bonitos que já li. E dos mais pungentes também.

Carlos Rafael Dias disse...

Quão aprazível poder ler
Essa insustentável leveza
Mesmo com tanto esgar
E com tantas sombracelhas

maria guimarães sampaio disse...

aqui nos comentários muitcha palavra já dita e eu... sem palavras

Nilson disse...

Concordo. Beleza de texto. Reflexão das boas, tb!

Gerana Damulakis disse...

"O que sei de mim é o que me contam as pessoas...", esta frase sua me lembrou Affonso Romano de Sant'Anna, que uma vez me disse:"Quem melhor pode contar nossas memórias são os outros".
Sabemos, enfim, tão pouco e, talvez, seja melhor.
Já li 2 vezes o texto.

Gerana D disse...

Aeronauta: veja que beleza que eu sei de cor: “Há vinte anos não digo a palavra/ que sempre espero de mim./ Ficarei indefinidamente contemplando/ meu retrato eu morto.”
“Poema”, in Pedra do Sono
João Cabral de Melo Neto

Lidi disse...

Gosto tanto do que você escreve! Não fico mais um dia sem acessar teu blog, aliás, acesso várias vezes por dia, ansiosa por um novo post! Beijo!

Maria Muadiê disse...

o vôo é cego, companheira, temos que guentar o tranco sem saber de mim, de nós, de todo mundo...

Bernardo Guimarães disse...

seu texto me lembrou um quadro de Dalí...

Edu disse...

estou como Maria: sem palavras. só sentindo

Edu

Viviane Costa disse...

Ótima reflexão, Nautita! Já me peguei pensando isso tb, mas nunca dividi com ninguém. Isso de só se saber através do que te dizem é tão estranho, né? Principalmente, porque cada um acha uma coisa e como ser tantas e não se saber nenhuma? Estranho demais. Amei, amei e amei esse texto!

Anônimo disse...

Alguém

Lembrei de "Ponciá Vicêncio" de Conceiçao Evaristo profundas ausências e vazios, paisagens e percepção de menina, memória rica e saudades do que já se foi e a solidão do que já foi dito, estar além da realidade presente e uma escrita de dentro para fora é isso que encontro tanto na leitura deste livro como no teu blog.

A muito tempo me deleito lendo teu blog.

carmen disse...

Hoje conhecí teu blog.
Belíssimo!
Que bom ouvir o eco das nossas palavras e emoção.
Beijo