segunda-feira, 13 de abril de 2009

no divã


A hora mais feliz da minha vida é esta. O pior é que nunca sei como aproveitar. Fico doida pra estar aqui e quando estou parece que viro uma besta, não consigo aproveitar nada. Espero uma semana inteirinha pra chegar segunda, e quando chega não aproveito. Depois só aproveito as lembranças, todas liquefeitas, transformadas por mim, que nisso sou mestra: em deformar a realidade. E agora estou aqui, na sua frente, lhe olhando, e de repente lhe acho feio. O que importa? Quando chegar em casa, e me lembrar de você, seus olhos ganharão uma nebulosidade mais lírica, suas mãos serão gigantescas para as carícias mais ternas, e sua mudez remédio doce para minha mais mórbida eloquência. É, é feio mesmo. De uma feiúra dolorosa e comovente. Ah, se eu pudesse ouvir você, e não o contrário. Se eu pudesse lhe amparar, lhe colocar no colo. Vejo suas dores todas na sombra que suas costas desenham na parede. Você parece, coitado, Gregor Samsa transformado em inseto. Seus olhos têm pestanas enormes e desesperadas. Oh, meu querido, lhe tratarei melhor de que todo mundo. O leite que lhe darei à noite será morno, e nunca, prometo, nunca terei nojo de você. Você é o meu irmão, é o meu pai, o meu marido, o meu amante, o meu filho. Saia dessa cadeira besta, e vamos andar por aí. Que transferência que nada, que Freud que nada! Vamos matar Freud! Ah, seria tão bom aquele sorvete ao ar livre, você contando tudo sobre as frutas roubadas na infância. Você rindo! Você rindo! Eu ouvindo você, eu ouvindo você! Ah, Gregor Samsa, não ligo nem um pouco para suas pestanas enormes, acho-as lindas. Só queria que você parasse de me olhar; seus olhos são fundos, antigos; parece que vou entrando num abismo. Por isso não consigo aproveitar esse momento. Pronto, você olha para o relógio. Não tem como você colocar esse maldito relógio num lugar onde eu não veja tamanha indelicadeza? Oh, suas pestanas tão longas, tão desamparadas. Kafka, do outro lado da porta, murmura algo. É, tempo esgotado. Resta-me a próxima segunda, a próxima segunda, e a próxima, numa espiral interminável...


Imagem: www.google.com.br

12 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

sendo ficção ou de mesmo, para mim nem importa. Importa o grande texto em cima da transferência, bonito, corajoso.

Marta F. disse...

Bom adentrar teu universo, mentira, ou não.
Uma figura assim enigmática,tanto quanto o terapeuta não deseja te dar alta, mais adoeço aqui. E me curo...espiral interminável?

(Retifico "textos mínimos, sem excessos" para "enxutos,sucintos" foi o que quis dizer, viu?)

Beijo beijando.

M. disse...

Lindíssimo. Beijos, M.

guilhermina, (ataulfo) e convidados disse...

não foi à toa que ele disse ao analista: E desde quando angústia tem hora marcada?
bj
guilhermina

Renata Belmonte disse...

Amiga,
You rock!(rs)
Maravilha de texto!
Bjs

imonizpacheco disse...

O bacana dessa roda, é a imaginação de cada um sobre a imaginação de um : é ficção, é de mermo? Prá mim é ficção e pronto: lindo !

Maria Muadiê disse...

Aero, Aero, vou ficar te esperando....

Sabe que esse texto até me deu saudade do divã?

beijo

Edu O. disse...

quase fico sem ar. tentei escrever um texto a respeito desse assunto, não saio com esta beleza.

Gerana D disse...

Excelente texto, torrencial, eu diria primeiramente. Pouco importa se é ficção ou não, não importa, é detalhe. Importa a literariedade contida e sem forçar (sente-se). Não era a minha intenção analisar o texto (hábito), só queria dizer do meu prazer na leitura que, de saída, venho sentindo sempre que entro aqui.

maria guimarães sampaio disse...

Aero, na chamada lá em continhos já aparec "diarinho da aeronauta" e chego aqui não tem... (17:20 do dia 15)

maria guimarães sampaio disse...

Essamenina, creio que o ritmo do blog é o autor quem dá. Repare, as vezes a gente quer escrever até mais de uma vez por dia. Depois... dias sem escrever. E assim toca o bonde pra Lapinha. Quem abusa não lê, quem sente falta pede mais.

Marcus Gusmão disse...

Eu peço mais. Mais, mais, mais...