terça-feira, 26 de agosto de 2008

A menina do tempo

Na minha vida inteira escrevi diários. Querem ver? Vão àquela gaveta ali em frente e leiam: são mais ou menos uns trinta, de várias fases de minha vida. Todos pretensiosos: comecei querendo imitar os diários de Luluzinha e progredi para os de Clarissa, de Érico Veríssimo. Só que os meus eram muito inferiores; isso porque na minha vida não acontecia nada de especial: e eu queria registrar o nada absoluto. Aí então eu desabalava a falar do tempo: "Hoje está nublado, parece que vai chover..." Ou "Hoje está um sol quentíssimo". Sem me dar conta, virei a menina do tempo - e que não despertava nenhum interesse em qualquer leitor curioso. Só para ter uma idéia, eu poderia deixar o diário aberto sobre o sofá que ninguém lia. Ninguém tinha interesse naquela vida que não acontecia nada. Só mais tarde fui me tornando mais densa, falava de sentimentos, sensações e não, necessariamente, sobre o cotidiano. Mas nenhum diário se salva, nenhum. Porém todos gritam uma verdade única e terrível: eu.

6 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

o que é diário senão a gente inventar a vida da gente?
beijos de maria para Aero

Bernardo Guimarães disse...

Sempre esperei por uma definição perfeita dos diários; a sua é definitiva! O meu ( diário), há muito foi pro lixo, pesado de nada.

Personagem Principal disse...

Assim que termino um diário, faço uma fogueira na rua e queimo todinho, até virar pó. Não simpatizo com a possibilidade de descobrirem que sou também uma menina do tempo. Beijocas. :)

Maria Muadiê disse...

os diários rompem o silêncio...

Menina da Ilha disse...

E as propagandas? Seus diários são relíquias hilárias.

Mônica Menezes disse...

Moça Alada, eu fiquei com muita vontade de ler seus diários, devem ser preciosos.