quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Tio Abel

Como esquecer Tio Abel? Magro, cabelos brancos revestidos de uma pretensa dignidade sábia, irmão de meu avô por parte de mãe. Ia nos visitar sempre às segundas, dia de feira. Vinha com o mesmo paletó e a mesma lábia famosa. Falava muito, da hora que chegava até a hora em que ia embora. Atalhava mãe na cozinha e tome-lhe conversa. Nós - eu, minha irmã e as amigas - ficávamos cercando ele para todos os lados a fim de que lesse nossas mãos. Tio Abel tinha fama de sabedor das coisas: toda semana pegava nossa mão direita, colocava bem perto do olho (apurando as vistas) e via todo o futuro, falando e cuspindo. Coitada de Sílvia, amiga nossa: ele sempre lembrava-lhe que o destino estava lhe reservando algo tenebroso, aos 23 anos de idade. Oh, e a infeliz, na época, tinha só doze! Sofreu com esse vaticínio até chegar aos 23...

ORÁCULO

Irmão de meu avô,
Tio Abel era um velho magro,
vestindo um paletó surrado
com ares de sabedor do mundo.

Nós éramos meninas ainda,
Afoitas e destemidas, a sondar destinos
Que tio Abel bem os via, no fundo das linhas
Visíveis, de nossas mãos vazias.

Nelas, cruel, tio Abel lia tudo,
O futuro se mostrando, sem força alguma,
Com suas dores determinadas, uma a uma.

Sentenciava alto o que nos aconteceria
Num dia distante, com data e hora marcadas,
Enquanto, ao nosso lado, tossia grave,
Impávido, sábio, trazendo todas as chaves.

5 comentários:

Bernardo Guimarães disse...

Como é bom esperar sua postagem! A poesia é formidável, como é tio Abel. E o sofrimento que ele porventura causava às inadvertidas, bem...não era tanto sofrimento assim.

maria guimarães sampaio disse...

Aero, quando meu primo chega primeiro... eu nem preciso dizer mais nada. Hoje acrescento A poesia é formidável, como é a prosa e como é tio Abel. Beijo Maria

Carlos Barosa disse...

Aérea Persona, duas coisas precisam ser esclarecidas: que propagandas eram aquelas que constavam em seus diários? e, afinal, o que aconteceu, ou não, de tenebroso, aos 23 anos da pobre menina? Ou será que vc só vai contar tudo no "Grande Livro" em preparo? Abr. (carlos)

Mônica Menezes disse...

Tudo o que você toca vira ouro, melhor dizendo, vira poesia. Beijos

Nilson disse...

Belo poema. Bela figura esse teu tio Abel.